A idéia da privatização dos serviços de saneamento, anunciada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, está de acordo com a tese geral de desestatização e de enxugamento do Estado. É, sem dúvida, coerente com tudo o que vem sendo feito em relação à liberalização da economia, além de ser o caminho mais adequado até para a solução dos tremendos problemas do setor. Com efeito, os recursos necessários hoje para a solução dos problemas de saneamento básico no País são de tal porte que a União (aí entendidas as empresas estatais, notadamente as dos Estados), não tem condições de atender à demanda. O resultado é o que se está vendo e vivendo, com as precárias condições existentes em praticamente todo o País, a falta em muitas regiões até de água tratada, a precariedade da rede de esgotos, tudo isto refletindo de forma inaceitável sobre a qualidade de vida da população, contribuindo para o surgimento de doenças e o aumento no índice de mortalidade entre os mais carentes.
Ocorre que está sendo esquecido nesta grande equação aquele que se pretende até beneficiar, o cidadão carente, que ganha mal, sobrevive graças a empregos do mercado informal e corre o risco de ser excluído dos benefícios que a privatização antecipa. A questão é simples e envolve, principalmente, os bens mais necessários para a vida de cada um, como água, esgoto e energia elétrica. As tarifas de água e esgoto e de energia elétrica cobradas à população, em especial à grande maioria que consome o mínimo, são baixas. Em muitos casos, não cobrem sequer o custo. São chamadas inclusive tarifas sociais. As empresas responsáveis pelo setor, na maior parte das vezes estatais (caso, por exemplo, da Sanepar, no Paraná) adotam procedimentos especiais para atender os mais carentes, inclusive levando em conta problemas como o desemprego.
Ora, no momento em que o serviço passar a ser de empresas privadas, isto cessa. O setor é sem dúvida atrativo, certamente não tanto como o de telefonia, que apresenta um enorme potencial. O empresário particular, o investidor estrangeiro, terá interesse em investir no setor de saneamento. Mas, naturalmente, não deverá ter qualquer preocupação social. Vai estabelecer tarifas reais, vai cobrar com rigor, não terá obrigação de resolver problemas dos consumidores. É o modo liberal de agir. Acontece que o governo precisa ter em mente suas obrigações para com o povo. Vender, pura e simplesmente, as empresas responsáveis pelo saneamento, sem levar em conta o que vai acontecer com os que talvez não possam pagar depois pelo benefício, pode criar novos problemas. O próprio governo pode se ver obrigado a subsidiar o consumo dos mais necessitados, o que criará outro tipo de problema para a administração.
A solução para isto passa, primeiro, pelo reconhecimento do problema que existe. O cidadão deveria ter a possibilidade de encontrar emprego para se manter. E o salário que viesse a receber deveria ser suficiente para atender às necessidades da família, incluindo aí não só água e luz, mas também escola e alimentação para que a criança não precisasse apelar para o estudo gratuito ou a merenda escolar. Trata-se de realmente transformar esta economia nacional e liberalizá-la de tal modo que haja incentivos para a criação de empregos, investimentos produtivos e salários condignos. Privatizar serviços públicos tão essenciais quanto este da água, sem pensar no cidadão e em suas necessidades, apenas abarca parte da questão. Importa que se pense o problema de modo global para resolver toda a equação social, dando condições ao trabalhador brasileiro de ter emprego e de sustentar dignamente sua família. Isto é liberalizar com preocupação social.

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