Editorial - Enfrentar a realidade
Cólera no Litoral (com suspeita de casos em outras regiões do Estado), malária no Oeste, dengue por toda parte. As imagens vistas nos últimos dias de alguns pontos do Paraná, inclusive da periferia de Curitiba, com esgoto a céu aberto, provocam um choque, contrastando com a imagem de Primeiro Mundo da capital do Estado. A isso, some-se um quadro igualmente triste: a dificuldade para se esclarecer boa parte da população sobre a prevenção da cólera, entre outros fatores, porque simplesmente as pessoas não sabem ler. O Brasil, naturalmente, ainda não venceu o analfabetismo, embora por décadas se tenha anunciado campanhas a respeito. Nem a miséria, nem a fome, nem a doença. Fato é que brasileiros continuam a morrer vítimas de males que poderiam ser evitados pela vacinação, pela educação ou por uma atuação efetiva nos setores do saneamento.
A questão maior, porém, está na falta de disposição de enfrentar a realidade. Só quando não há como fugir a ela, quando a epidemia explode (como aconteceu em Paranaguá), então se anunciam medidas emergenciais. Ocorre que este e outros males apenas persistem no Paraná, como no Brasil, precisamente porque há uma predisposição de fugir à realidade, mascará-la, adotar a prática do avestruz. Não é a solução, ao contrário: agrava o problema. É preciso que haja coragem e desassombro para realizar campanhas permanentes e objetivas visando enfrentar doenças, fome, ignorância. Não será por não falar no assunto, por fazer de conta que as coisas estão bem, quando não estão, que se terá de fato um Estado exemplar.
O Brasil há muito poderia ter vencido doenças endêmicas, miséria, fome, até a seca que continua hoje, como no tempo de Pedro II, a matar brasileiros. O que ocorreu com a poliomielite é emblemático. O País se dispôs a acabar com aquela doença e realizou um trabalho fantástico, sério, corajoso de vacinação. O resultado está aí: atualmente, pode-se dizer que a pólio foi erradicada no País. Por que isto não aconteceu com a coqueluche, a difteria, o tétano, o sarampo? Certamente porque não se age com a mesma disposição. Também seria possível evitar a cólera, desde que se realizassem trabalhos sérios de saneamento. E quanto ao analfabetismo, bastaria que os governos fizessem o que a Constituição determina, dando escolas às crianças. Há tantas gerações se fala, empiricamente, em alfabetizar a população! Mas o que se vê, a cada ano, é criança sem escola, são famílias que dependem dos filhos para completar um orçamento minguado.
Não é vergonha reconhecer que somos um Estado com problemas de país subdesenvolvido. Temos sérios e graves problemas de saúde, saneamento, educação. Não vai adiantar fugir a isto ou minimizar, nem mesmo culpar outros pela nossa realidade. O que resolve mesmo é enfrentar estes problemas com vontade, determinação, com a coragem que fez deste Paraná o que é hoje. Porque apesar destes obstáculos, sabe-se não só do potencial do Estado, mas do que ele efetivamente produz e representa para o Brasil. Na verdade, falta pouco para que se transforme em realidade o sonho deste Estado exemplo para o Brasil, admirado pelo mundo.
Um problema se resolve a partir do enunciado e do conhecimento dos fatos que envolve. É preciso aceitar a realidade que aí está e enfrentá-la de frente, com disposição e discernimento. Investir em saneamento básico, em vacinação, em educação é tão importante quanto oferecer isenções para a instalação de indústrias. E, seguramente, o investimento feito no bem-estar, na saúde, no desenvolvimento do paranaense, constitui o melhor trabalho que qualquer governante pode fazer.





