Editorial - Em busca de caminhos
No meio de toda a turbulência que afeta o mercado mundial, provocando temores sérios sobre uma recessão global, tudo isto acompanhado por muita especulação e boataria, a Malásia resolveu buscar uma alternativa diferente da que vem sendo adotada pelos governos de muitos países que enfrentam dificuldades. O governo daquele país resolveu impor controle sobre o câmbio, adotando restrições à conversão de sua moeda, seguindo idéias expostas pelo economista norte-americano Paul Krugman que, aliás, comentando a iniciativa, deixou clara a posição segundo a qual este curso deve ser usado como um instrumento para acelerar as reformas econômicas estruturais e não como um meio de retardá-las. Esta semana, o banco central do país, Banco Negara, anunciou as medidas que efetivamente tornam a Malásia o único lugar onde o ringgit (moeda nacional) pode ser negociado. A idéia é proteger a moeda enquanto o governo continua afrouxando a política monetária para reativar a economia. O Banco Negara detalhou os controles de capital limitando a transferência do ringgit para contas no exterior, que entram em vigor imediatamente, e determinou que todo ringgit mantido no exterior terá de ser repatriado em um mês ou será declarado sem valor. Os bancos estrangeiros foram proibidos de obter créditos em ringgit dentro do país para financiar posições especulativas.
A iniciativa é temerária e, até como assinala o autor da teoria em que se baseou, não representa uma solução, mas um caminho. Entretanto, o que ressalta no caso é perceber que aquele país tenta encontrar soluções fora dos padrões que vêm sendo indicados pelo FMI e pelos outros controladores da economia mundial e que, conforme se observa na prática, não têm dado resultado. Com efeito, o Wall Street Journal, um dos jornais econômicos mais influentes do mundo, em editorial publicado quarta-feira, pede não apenas a substituição do presidente do Fundo, mas também a saída do subsecretário do Tesouro dos Estados Unidos, Lawrence Summers, o homem-chave do país na área de finanças internacionais. E baseia esta posição dura na falta de resultados das diretrizes que o FMI vem adotando, notadamente nos últimos tempos.
Ambos, segundo o Journal, estão aí em seus cargos para defender os erros que provocaram o atual desastre mundial. O Journal admite, no entanto, que as economias em todo o mundo têm sido também muito mal gerenciadas e cita como exemplo as políticas e políticos de Indonésia e Rússia. De acordo com o Journal, esses problemas têm persistido durante décadas e acabaram sendo estimulados e transformados em crise por erros políticos específicos. Um deles foi a política de ajuda para a crise mexicana em dezembro de 1994, desenhada por Summers. O segundo, foi o erro intelectual do FMI ao considerar que as desvalorizações monetárias poderiam restabelecer essas economias. A desvalorização provoca inflação, que, por sua vez, provoca problemas econômicos e sociais. Além disso, a desvalorização tende a se estender quando cada país sente que tem de manter-se competitivo nos mercados internacionais.
Para o Wall Street Journal, já passou da hora de se tentar novas alternativas. E o elogio do comentário vai para o Brasil. Então - assinala o editorial - a prioridade é deter o ciclo de desvalorizações nas economias dos países, e a forma de defender as moedas é por meio de restrições de liquidez doméstica e não de criação de mais liquidez. O Brasil, peça-chave que determinará se a corrente de desvalorizações competitivas irá ou não contagiar a América Latina, parece entender melhor este recado, conclui o Journal. Se isto se deve à visão dos seus dirigentes ou à campanha eleitoral, é outra história.





