Faltando uma semana para as eleições, o comentário mais comum é precisamente o de que o clima não dá a impressão de se estar tão próximo da mais importante data da democracia. Os mais velhos, até com saudosismo, reclamam e lembram que no passado as coisas eram diferentes, as cidades mudavam de aparência nos meses que precediam as eleições, havia aparentemente maior interesse em relação ao pleito, os candidatos promoviam grandes comícios, se envolviam em uma verdadeira batalha e faziam o corpo-a-corpo, o contato direto entre o postulante e o eleitor. Panfletos nas ruas, nos postes, nas paredes, ‘cabos eleitorais’ em ação constante, uma algazarra, uma festa democrática que ia num crescendo até desembocar no dia das eleições, ocasião em que o esforço atingia o auge.
Hoje, tudo está diferente. A campanha eleitoral quase que se restringe apenas aos meios de comunicação, notadamente rádio e TV. Os horários gratuitos de propaganda eleitoral, que serviram para reduzir o poderio econômico dos candidatos com mais recursos, também acabaram limitando em muito a divulgação. As atrações que existem atualmente disponíveis para o público, em quase todo o país, acabaram até com o atrativo dos grandes comícios do passado. Quem quiser ainda se arriscar a tentar levar o povo às ruas para ouvir propostas políticas deve se fazer acompanhar de atrações de peso, cantores ou humoristas de renome, senão o eleitor vai é ficar em casa, vendo as novelas de todos os dias.
Para completar a mudança, a introdução da reeleição para governadores e presidente (embora eleitos também pelo critério majoritário, os senadores sempre puderam se candidatar à reeleição), produziu uma alteração de peso, com os atuais titulares disputando, no exercício do cargo, um novo mandato. Pretender, como ainda insistem os defensores da reeleição, que se trata de uma ocasião única, porque dá ao eleitor a possibilidade de um julgamento direto do candidato pelo que fez nos quatro anos precedentes, é parte da verdade. Ocorre que os governadores, assim como o presidente, com imagem conhecida ao longo do tempo e, principalmente, com a posse do poder, saem para a disputa em grande vantagem. As múltiplas ações que partidos de oposição movem contra governadores e o presidente, apontando ‘abusos’ na campanha, são de difícil comprovação por causa do exercício em si do cargo. Os candidatos à reeleição estão naturalmente expostos e sua vantagem reflete na campanha.
Paralelamente, o desencanto popular com os políticos contribui para tornar ainda mais delicada a questão. Se é ponderável o índice dos que se mostram desanimados em relação aos candidatos à presidência e ao governo dos Estados, no que se refere à Assembléia e à Câmara Federal o quadro é mais triste. O eleitor se sente frustrado diante da sucessão de abusos noticiada ao longo do tempo, da falta de disposição para o trabalho dos que o representam atualmente nos Legislativos estadual e federal e dos escândalos que se sucedem. Isso tudo faz com que ele acabe anunciando que vai votar nulo ou em branco.
Mas este é precisamente o grande desafio, não dos políticos, mas do povo. Não se trata, em última instância, de uma questão afeta a algumas pessoas, mas a todos os brasileiros. Votar não é uma obrigação que se cumpre com má vontade, ou nem se cumpre, apenas comparecendo às urnas para não ter problemas legais. É um direito conquistado com sangue e sacrifício ao longo dos tempos. Em nome disto é que o eleitor tem de fazer o clima e valorizar a democracia que forja a cada dia.

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