Os norte-americanos vão às urnas, hoje, para renovar a totalidade da Câmara de Representantes, um terço do Senado (que tem um total de 100 membros), 36 cargos de governador e 46 dos 50 legisladores estaduais. As eleições, importantes por si, têm também um outro aspecto: diante da ameaça de impeachment que pesa sobre o presidente Clinton, o resultado do pleito constitui uma espécie de definição do eleitorado a respeito do presidente. Atualmente, os republicanos, de oposição, dominam tanto a Câmara dos Representantes quanto o Senado. Caso mantenham ou aumentem sua maioria, na Câmara, isto sem dúvida significará (pelo menos esta é a leitura mais natural) que a maioria, apesar de todas as pesquisas, não está muito favorável ao presidente Clinton. Já se os democratas conseguirem performance melhor que nas últimas eleições legislativas, ainda que não conquistando a maioria na Câmara, isto poderá ser considerado um sinal de apoio a Clinton. E como amanhã começam os procedimentos legais, por parte da Câmara, em relação à denúncia que gerou o início do processo para o impeachment do presidente, é certo que o resultado das eleições, principalmente as legislativas federais, vai pesar muito na balança.
Mesmo que os democratas sofram uma pesada derrota hoje, isto ainda não implicará a aprovação automática do impeachment do presidente. O procedimento norte-americano é complexo: primeiro a proposta deve ser aprovada pela Câmara dos Representantes (o que pode acontecer, prevalecendo a maioria republicana). Mas depois a questão vai para o Senado e Clinton só precisa de um terço dos senadores (67 em 100) para manter a presidência. Mesmo que haja um resultado arrasador para os republicanos, na composição do terço do Senado que está em disputa, é improvável que os democratas fiquem em desvantagem tão grande. Entretanto, existe o dado moral na questão: uma arrasadora vitória republicana valerá quase como um veredito anti-Clinton.
As pesquisas, inclusive as mais recentes, indicam que a maioria da população é contra o processo de impeachment de Clinton. Entretanto, quando a consulta é feita apenas entre os que vão votar, decresce este apoio ao presidente. Esta situação é preocupante, para Clinton e para a própria democracia. Segundo os mais recentes levantamentos e, também, conforme os precedentes históricos, dois de cada três inscritos não participarão dessas eleições, na metade do mandato presidencial. A taxa de participação é mais elevada para as eleições legislativas quando ocorrem ao mesmo tempo que as presidenciais. No último pleito presidencial, de novembro de 1996, a taxa de participação foi de 49,08% (96,4 milhões de eleitores dos 146 milhões inscritos), segundo informações oficiais. Mas durante as últimas eleições de meio mandato presidencial, em 1994, a participação só foi de 38,78%, e nas anteriores, de 1990, foi de 36,52%. Em 1996, o número de pessoas inscritas correspondia a 74,4% da população em idade de votar. E o dia das eleições, nos Estados Unidos, não é feriado. O pleito ocorre na primeira terça-feira de novembro, chova ou faça sol. Dia útil.
Assim, quem vai decidir o futuro de Clinton talvez seja apenas um terço do eleitorado. Do ponto de vista dos que insistem na tese da maioria, é um equívoco. Mas quando se entende a democracia como deve ser, quando se percebe que quem participa, votando, é que demonstra o espírito real que deve nortear a questão do governo do povo, pelo povo e para o povo, então é justa a situação. Quem não vai, quem prefere se omitir, escolhe o caminho da renúncia ao direito de cidadania. Resta esperar o veredito soberano dos eleitores que não vão faltar ao encontro com as urnas.

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