Editorial - Eleições no Paraguai
Editorial
Eleições no Paraguai
A realização hoje do pleito presidencial no Paraguai, conforme estava definido no calendário eleitoral, já é por si um fato destacável diante de toda a crise que se produziu no vizinho país a partir do lançamento, pelo partido governista, da candidatura do general Lino Oviedo. Embora Oviedo tenha sido sufragado pelo partido no poder, o próprio presidente Juan Wasmosy adotou posição contrária à sua candidatura, permitindo que surgisse uma situação de crise, inclusive com a ameaça de adiamento das eleições.
Para Wasmosy, Lino Oviedo era inaceitável por uma série de razões, a primeira das quais, e sem dúvida a mais séria, por ter liderado um movimento que pretendia, fundamentalmente, derrubá-lo. Como já aconteceu muito, notadamente nesta América Latina de democracias não muito fortes, tendo sido derrotado na tentativa bélica, Oviedo resolveu buscar o poder pelas vias democráticas. Em tese, nada a opor, já que este é um direito de qualquer cidadão. Mas há o aspecto legal da questão. O general usou de meios ilegais em seu movimento contra o poder constituído. Wasmosy, que não aceitava a candidatura Oviedo, ainda que lançada pelo seu partido, entendia que antes o general tinha de prestar contas à Justiça. O que complicava as coisas era o fato de o presidente haver dado a entender que poderia tentar usar artifícios igualmente inaceitáveis (entre eles, o eventual adiamento das eleições) para evitar a antecipada vitória eleitoral de Oviedo, segundo pesquisas que se realizavam à época.
A solução para a crise veio pela via que, em uma democracia, é a natural: a Justiça condenou Oviedo pela sua tentativa de golpe e ele, por isto, se tornou inelegível. Com isto, a situação para o partido governista, que já contava com a vitória, ficou difícil. Cresceu a candidatura do oposicionista Domingo Laíno que, depois de tantas tentativas - ele que foi adversário ferrenho do regime totalitário em seu país -, pode chegar à presidência. Mas, dentro da lei, os Colorados adotaram a candidatura do companheiro de chapa de Oviedo, foram à luta e, hoje, conforme as últimas pesquisas, estão na disputa.
O resultado do pleito é hoje imponderável. Todavia, do ponto de vista da análise externa, já há uma vitória na preservação do calendário, ainda mais quando se recorda que o perigo de uma outra solução esteve muito presente durante os tensos debates sobre a candidatura Oviedo e a postura do presidente Wasmosy. Independente da possibilidade de uma vitória da oposição, que seria também um marco, já que quebraria a hegemonia do Partido Colorado, no poder há 50 anos, há um fato importante: qualquer que seja o escolhido pelos paraguaios, acontecerá a passagem da faixa presidencial de um governante civil para outro, o que, também na História política do Continente, é de destacar.
Ademais, a preservação do calendário eleitoral e da democracia no Paraguai constitui acontecimento de real importância para o próprio destino do Mercosul. Em meio à crise, o presidente Wasmosy recebeu recados dos demais países-membros do Tratado alertando para as dificuldades que haveria para o Paraguai, em sua convivência regional, caso houvesse a quebra dos princípios democráticos. Com efeito, e embora cada país deva ter liberdade para escolher seus próprios rumos, é certo que qualquer tipo de ruptura institucional no Paraguai traria reflexos sobre toda a situação no sul do Continente, podendo abalar a ainda incipiente união forjada no Mercosul. Assim, o pleito de hoje no Paraguai, além de sinalizar para o fortalecimento da democracia, também serve para dar mais vitalidade ao Mercosul.





