Em outubro, os eleitores brasileiros não vão votar apenas para presidente e governadores. Também estarão em jogo no pleito todas as cadeiras da Câmara Federal, um terço dos lugares no Senado e todos os cargos nas Assembléias Legislativas dos Estados. Infelizmente, porém, e até como de costume na vida política brasileira, os eleitores e os próprios partidos dão menor atenção ao chamado pleito proporcional, como se fosse algo subalterno.
No entanto, o pleito para os Legislativos é, no mínimo, tão importante quanto o da escolha dos chefes de Executivo. Com um detalhe que ainda confere importância maior à escolha dos deputados federais e estaduais, principalmente. Ocorre que nas eleições para o Executivo e também para o Senado, o critério de escolha é pelo voto majoritário. Ganha aquele candidato que for o mais votado. Com a inovação adotada há algumas eleições, de exigência de quórum mínimo para a definição no primeiro turno (o candidato mais votado tem que ter pelo menos 50% dos votos), evitou-se a distorção do passado, quando era possível a um político eleger-se presidente, governador ou prefeito até com 35% ou 40% dos votos, desde que houvesse muitos candidatos e o pleito fosse equilibrado. Mesmo assim, com este tipo de escolha, persiste uma situação natural: os que votam no candidato que não ganhou, perdem. Pode ser 30% ou 40% do eleitorado, simplesmente seu candidato fica fora.
Já no pleito proporcional (deputados federais e estaduais e também vereadores), a situação é diferente. A formação dos Legislativos é feita através da proporcionalidade dos votos recebidos pelas legendas, de tal modo que praticamente todos os partidos (conforme o total de seus sufrágios) têm representação. Isto significa que nos Legislativos todo o eleitorado é representado, inclusive as minorias, o que produz uma das grandes definições da democracia, com a representação das mais diferentes camadas de opinião junto ao poder. Também por isto o Legislativo tem importância fundamental no processo político. As minorias ali representadas podem defender seus pontos de vista e têm força para garantir o equilíbrio, tão necessário ao regime em que verdadeiramente se leve em conta a vontade do povo.
Esta realidade por si deveria dar aos pleitos proporcionais um destaque tão grande quanto o das eleições majoritárias. Não é o que acontece. Os partidos entram com toda a disposição na disputa para os Executivos. O horário eleitoral gratuito no rádio e na TV, uma das grandes oportunidades no contato dos candidatos com o eleitor, é quase totalmente dedicado à pugna para a chefia do Executivo, federal ou estadual. Os candidatos a deputado, federal ou estadual, aproveitam as sobras, ficam praticamente na beirada do processo, dependendo de recursos próprios (e isto prejudica os que dispõem de menores condições financeiras), quase que marginalizados em uma escolha na qual representam parte vital.
O maior prejudicado com isto é, no fim, o eleitor, que será intoxicado de divulgação dos candidatos aos postos de Executivo e ficará quase que sem orientação para se definir na escolha dos nomes para os Legislativos, o que contraria a própria essência da campanha política, de apresentar propostas concretas e dirimir as dúvidas do eleitorado, para que vote com consciência. O resultado disto é natural: uma enxurrada de votos em branco e nulos, tanto para a Câmara Federal quanto para as Assembléias Legislativas e uma escolha que, no final, pode ser danosa ao sistema e, como resultado, ao próprio povo. Depois, surgem as críticas ao Legislativo, tão naturais nos últimos anos, mas consequentes de uma falha que começa nos partidos e acaba no eleitor.

mockup