Editorial - Efeito cascata
É o inevitável efeito cascata: os derivados de petróleo terão reajuste de preço. Em nota distribuída ontem, com o anúncio da majoração, o Ministério da Fazenda lembra que os preços dos derivados de petróleo até agora não haviam sofrido aumento, apesar da mudança do regime cambial. Segundo o ministério, isso foi possível porque a Parcela de Preço Específica (PPE) foi utilizada para absorver o efeito das variações cambiais sem onerar o consumidor e a Petrobrás. Entretanto, segundo a nota, decorridos quase dois meses da mudança do regime cambial, será realizado um ajuste parcial nos preços dos derivados nas refinarias. O Ministério informa, ainda, que a repercussão sobre os preços da gasolina e do gás de cozinha (GLP) ao consumidor será diferenciada, tanto em função dos produtos e da região onde são comercializados quanto em função do regime de preços vigente (tabelamento ou preços livres). O aumento ao consumidor deverá ser inferior a 6,5%, o que representa metade do reajuste aplicado aos preços nas refinarias. Nos segmentos de distribuição e revenda, os preços da gasolina e do GLP estão sendo liberados na maior parte do País, de forma que o efeito do aumento na refinaria dependerá de decisões individuais dos agentes econômicos. Quanto ao diesel, que tem seu preço tabelado ao consumidor final em todo o País, a variação de preços será de 7,2%, em média. Dessa forma, afirma a nota, conciliam-se os objetivos de minimizar os impactos de curto prazo das variações cambiais sobre os preços dos derivados e a manutenção de superávit na PPE.
Por seu turno, o secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Cláudio Considera, informou que os reajustes nos preços do gás de cozinha e da gasolina deverão causar impacto de 0,26% no índice de inflação da Fipe. Segundo ele, será feita uma alteração no programa de ajuste fiscal para compensar o período em que os preços se mantiveram sem reajuste. Isto porque, no cálculo do esforço necessário para o ajuste fiscal, foi incluído o fluxo positivo da conta-petróleo em favor do Tesouro, que era de cerca de R$ 300 milhões por mês antes da desvalorização cambial. Agora o governo vai ter que refazer as contas para promover o ajuste.
O que vai se seguir é previsível e preocupante. O Brasil ainda não se livrou dos traumas da época de inflação exacerbada, quando os reajustes iam formando cascatas, acompanhados da indexação, com os índices se realimentando e provocando a angustiante espiral que ameaçava a sociedade com seus nefandos efeitos. É certo que estes anos de inflação reduzida ensinaram muita coisa. Igualmente foi importante a evolução do senso de cidadania, com o consumidor se tornando forte e consciente, na luta contra a exploração e o abuso. A legislação para proteção ao consumidor igualmente contribuiu para mudar um pouco todo o panorama.
Todavia, a desvalorização do real pode trazer em sua esteira a repetição e o encadeamento dos fatos que produziram a situação anterior ao plano de estabilização da moeda. Desde que o câmbio mudou, já foi possível perceber a ação de muitos tentando se aproveitar das circunstâncias. A especulação, que não morre, já tentou mostrar suas garras. Até agora, a combinação de consumidores mais conscientes com uma situação difícil tem evitado que as altas de preços se tornem perigosas. Mas este reajuste dos combustíveis, com efeitos que atingem todos os setores, ameaça deflagrar a escalada que se tenta evitar. Sem dúvida, esta é a ameaça mais séria que o plano de estabilização enfrenta, desde o começo da desvalorização do real. E se não houver um redobrado cuidado do consumidor e firmeza das autoridades, a inflação pode retomar suas piores formas.





