Editorial - Educação para a política
A Associação Comercial e Industrial de Cascavel, Oeste do Estado, anunciou que vai entregar o Troféu Cidadania à Associação de Bairro em que for registrado o menor índice de votos nulos e brancos no pleito de 4 de outubro. A iniciativa tem motivos: na última eleição, os votos brancos e nulos chegaram a 33% para deputado estadual e a 37% para deputado federal. A campanha naquele município tem um motivo a mais. Faz parte de um esforço destinado a levar o eleitor a sufragar candidatos da cidade. Todavia, é iniciativa que, sem dúvida, independente do caráter mais local (o que, aliás, remeteria de novo ao sempre esquecido debate sobre o voto distrital, nos pleitos proporcionais), valeria para o Paraná e o país como um todo. Pois o volume de votos brancos e nulos vem aumentando a cada pleito, atingindo não apenas a briga por uma cadeira no Legislativo, mas também as chamadas disputas majoritárias. Uma situação que deixa clara a insatisfação do povo em relação aos políticos e que, por outro lado, também constitui uma ameaça à própria democracia, que se enfraquece diante da avalanche de votos sem valor.
Independente de prêmios (afinal, o maior deles seria uma democracia cada vez mais forte, com representação de elevado nível), a idéia de Cascavel deveria servir de base para um trabalho até nacional no sentido de se enfrentar o desafio do voto branco e nulo. Isto, porém, demandaria mais do que um trabalho de véspera de eleições. Deveria ser, isto sim, uma atividade que acompanhasse a pessoa, um verdadeiro trabalho educativo que começaria em casa e passaria pelas escolas. Atualmente, já há até estabelecimentos de ensino (inclusive os de pré-educação) em que se ensina as regras de trânsito, o que é importante. Mas não se ouviu falar de escolas preocupadas em orientar o cidadão, desde a infância, sobre seu papel e a importância do voto, da participação em partidos, a respeito, enfim, do que é a democracia.
As lições que se tem são apenas as negativas. A imprensa divulga com todo o estardalhaço os escândalos, os abusos, a corrupção no meio político, tamanha a profusão, é verdade, com que vêm à tona. Isto acaba fortalecendo a idéia ruim sobre a política e os políticos. Pouco ou quase nada se ouve sobre todo o mecanismo democrático. Boa parte dos eleitores nem sabe como é que funciona a democracia, para que serve uma Câmara Municipal, uma Câmara Federal, uma Assembléia Legislativa. Este desconhecimento, ajudado pela divulgação dos abusos, acaba por dar ao eleitor a idéia de que é tudo uma sujeira e, assim, o melhor é não votar para não ser cúmplice. E, na verdade, este é o caminho pior.
O processo educativo, naturalmente, é demorado. No Brasil, é possível dizer que apenas bem recentemente se conseguiu difundir melhor o conceito básico da cidadania. Os quase quatro séculos como Colônia, os longos anos de uma democracia discutível (a chamada Velha República), os hiatos totalitários, tudo isto contribuiu para que ainda seja tênue o entendimento do povo sobre o sistema em que vive. É vital, porém, que se lute agora para ampliar os conceitos, partindo do começo, o que significa estabelecer bases educativas para que a população, desde a escola, tenha visão e entendimento sobre como funciona a democracia e, adicionalmente, qual o papel que incumbe a cada um dentro dela.
Importa ampliar a percepção do eleitor a respeito do valor e da importância do seu voto, para que note, principalmente, que quando critica o sistema é a si próprio que está questionando. Os Legislativos, como os Executivos, são formados a partir da escolha do eleitorado. Os legisladores corruptos foram colocados nas Casas de leis pelo eleitor. E só ele, votando com consciência e honestidade, pode alterar esta situação e, efetivamente, fortalecer de modo correto a democracia em que vive.





