É hora de agir
A falta de autoridade do presidente, a coordenação política falha e, principalmente, as muitas concessões nas negociações com o Congresso, visando a reeleição, estão na base da queda na popularidade do presidente Fernando Henrique Cardoso, segundo o entendimento de um dos líderes do setor industrial brasileiro, o presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), Francisco Renan Proença. O presidente da Fiergs considera que o empresariado se preocupa com a situação, assinalando que o clima político do País interfere diretamente nos negócios, alterando níveis de investimentos e consumo. Proença, que participou da abertura da 23ª Reunião do Programa Gaúcho de Qualidade, em Porto Alegre, enfatiza que o presidente da República deve assumir o comando do governo. Ele diz que efetivamente há uma recessão interna, mas que não produz um quadro tão grave como o que está sendo mostrado.
A análise do líder da indústria gaúcha é correta em sua simplicidade. Quando comenta as muitas concessões feitas pelo presidente, durante a tramitação da emenda que permitiu a reeleição dos chefes de Executivo, lembra o que aconteceu durante a formulação da atual Constituição, época em que o então presidente José Sarney lutou com todas as forças para conseguir o mandato de cinco anos (os constituintes pretendiam limitar o mandato de Sarney a quatro anos). Foi quando se forjou a famosa máxima ‘‘é dando que se recebe’’, que cunhou as múltiplas concessões feitas pelo Executivo a fim de sensibilizar o Legislativo. Vale lembrar que, depois de tudo, tendo conseguido manter os cinco anos de mandato, o sr. José Sarney passou o último ano sem fazer nada, deixando o País à matroca; a esperança popular caiu aos níveis mais baixos, junto com a popularidade do então presidente.
Em certo sentido, estes momentos que o País está atravessando lembram um pouco o último ano de José Sarney, com uma agravante: Fernando Henrique Cardoso tem um mandato inteiro a cumprir e o País, que quase afundou no período Sarney, não pode continuar neste clima. A falta de autoridade, indicada pelo presidente da Fiergs, representa o grande problema e implica na necessidade de uma imediata e concreta atitude do presidente. Os problemas que vem enfrentando, a grita da oposição — que, no caso, está em seu papel —, a rebeldia de seus aliados, tudo isto vai apenas piorar mais o quadro, a não ser que o chefe do governo deixe de lado a aparente instabilidade para retomar o rumo.
O que há de positivo em tudo é o que bem destaca o citado presidente da Federação gaúcha: a situação brasileira não está tão terrível como a pintam. Os produtores rurais estão em Brasília, manifestando-se contra o governo, mas a agricultura ofereceu ao País um resultado importante com uma excelente safra. O desemprego ainda é um desafio sério, assim como os juros altos, entretanto há sinais, embora tênues, de que algumas saídas começam a ser percebidas. Aliados do próprio presidente, como o ministro José Serra, sinalizam para a alternativa natural neste momento: a retomada do crescimento econômico. Isto, na verdade, não conflita com a política do sr. Pedro Malan (hoje um dos alvos mais diretos dos próprios parceiros políticos de FHC), mas depende apenas de uma diretriz concreta do próprio presidente.
Com a expressiva produção agrícola, com os indicadores menos graves no setor produtivo, tem-se as bases para que se processe este tipo de retomada de uma política de crescimento que, por si, abriria caminhos para tirar o País da atual crise. O que se faz necessário é que o presidente da República deixe esta aparente inação de lado e assuma o papel de condutor que lhe foi outorgado pelas urnas e que vai até o fim do ano 2002.

mockup