Editorial - É hora de afirmação
Sob o título O Brasil não é a Rússia, o jornal The Wall Street Journal, talvez o mais importante periódico sobre economia do mundo, ressalta em editorial que é importante fazer distinções entre os mercados emergentes num momento em que os investidores internacionais se mostram nervosos e olham para a América Latina em busca da provável próxima vítima depois da desvalorização do rublo russo. Felizmente, o Brasil, maior dominó latino, vem demonstrando a vontade política de manter a estabilidade da moeda há quatro anos, afirma o jornal, que ressalta ainda as diferenças entre o Brasil e a Venezuela. A Venezuela teve dois pacotes de ajuda do FMI, mas nenhuma reforma econômica séria.
O Wall Street Journal lembra que o governo venezuelano fracassou duas vezes na tentativa de privatizar suas companhias de alumínio. Em contrapartida, o Brasil privatizou as gigantescas Vale do Rio Doce, há mais de um ano, e a Telebrás, no mês passado. Embora afirme que as reformas no Brasil certamente requeiram maior urgência, o País lentamente começou a abrir seus mercados e a tirar o governo do meio de todas as transações econômicas. No campo político, o Journal ressalta que o presidente Fernando Henrique Cardoso é o favorito para a eleição presidencial porque os brasileiros gostam da estabilidade dos preços e das reformas. Enquanto isso, a Venezuela se encontra no meio de uma campanha presidencial em que o candidato favorito é um ex-militar esquerdista que liderou uma tentativa de golpe em 92 e cuja resposta à crise econômica do país é uma moratória da dívida. Segundo o Journal, não há razão para o Brasil ficar numa posição fraca e sem defesa a ponto de não ter escolha - a desculpa comumente usada, segundo o editorial, quando a defesa da moeda é abandonada.
A avaliação serve para tranquilizar em um momento de franca e complexa agitação. A impressão é a de que o mundo se converteu num jogo de sinuca global em que os países se converteram em bolas que vão sendo encaçapadas conforme os interesses de jogadores, para quem a única coisa que conta é o próprio ganho. O termo bola da vez, usado para definir a situação da Venezuela depois que a Rússia caiu, é sintomático. A colocação do Brasil como provável candidato a ser a próxima vítima oferece outra conotação de um jogo em que o que menos interessa é a situação real de cada país. O que vale é a disposição predatória dos especuladores, que dão a impressão de haver convertido o planeta em um parque de diversões particular.
Em realidade, não apenas o Brasil não é a Rússia, como assinala o jornal norte-americano, como também não precisa ser um marionete a ser manipulado conforme as disposições ou interesses dos piratas que resolveram tornar o mundo um feudo particular. As duras batalhas já enfrentadas pelos brasileiros e os importantes resultados obtidos nos últimos anos não podem ser desperdiçados agora em função do apetite insaciável dos barões da especulação mundial. Todavia, é imperioso que haja vontade política interna a definir a não aceitação para este papel de bola da vez no jogo mundial. É necessário não apenas uma permanente vigilância, mas um trabalho intenso destinado a consolidar as conquistas que deram ao país, pela primeira vez em meio século, uma estabilidade que permite vislumbrar um futuro melhor. Não há como permitir que neste momento o Brasil seja manipulado como um marionete sem vontade, uma bola no jogo dos outros. É a hora da reafirmação para garantir que os sacrifícios feitos ao longo da História resultem, afinal, na escalada para levar o Brasil a ocupar o lugar que merece no cenário mundial.





