Editorial - E agora, Fidel?
Ao convidar o papa João Paulo II para visitar Cuba, Fidel Castro fez uma aposta de alto risco: espera que a partir dessa visita histórica o isolamento de seu país seja quebrado paulatinamente, mas, em troca, tem de iniciar a abertura de seu regime, mesmo que lenta e gradualmente, pois seu ilustre visitante certamente vai cobrar a flexibilização do regime comunista, imposto há 38 anos.
Nas cem horas em que permaneceu em Cuba, entre a noite de quarta-feira e a de domingo passado, João Paulo II não só correspondeu como superou as expectativas, de Fidel e da opinião pública mundial. O papa foi duro ao condenar, diversas vezes, o rigoroso bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos e, igualmente por diversas vezes, exigiu a concessão de liberdade e o respeito aos direitos humanos em Cuba.
Em síntese, foi esse o conteúdo político da visita de João Paulo II, reiterado no momento apoteótico de sua viagem. Na missa rezada domingo na Praça da Revolução - local mais simbólico de Havana e de Cuba, pois ali se festejou a vitória dos guerrilheiros de Sierra Maestra sobre as tropas do corrupto Fulgêncio Batista, além de ser o palco das grandes festas nacionais e onde Fidel pronunciou seus mais contundentes discursos -, João Paulo II foi aplaudido diversas vezes por uma multidão calculada em 500 mil pessoas. E muitas delas portavam faixas e cartazes condenando a lei do silêncio a que estão submetidas e exigindo a libertação dos prisioneiros políticos.
Nesse local de tanto simbolismo para o regime e seu chefe absoluto, o papa não usou de meias palavras. Disse o pontífice: Chamada a vencer o isolamento, Cuba tem de abrir-se para o mundo e o mundo tem de aproximar-se de Cuba, de seu povo, de seus filhos, que sem dúvida são sua maior riqueza. E, em tom de exortação, completou: Esta é a hora de empreender os novos caminhos que os tempos em que vivemos exigem, ao aproximar-se o terceiro milênio da era cristã.
Para não deixar dúvida sobre sua mensagem, no momento em que tomava o avião de volta para Roma, João Paulo II disse que esse empreendimento era necessário para superar a angústia causada pela pobreza, material e moral, cujas causas podem ser, entre outras, as desigualdades, as limitações das liberdades fundamentais e as medidas restritivas impostas de fora do país, injustas e eticamente inaceitáveis.
O papa, na condição de chefe religioso de maior carisma no mundo, cumpriu sua missão como chefe de Estado que também é. Sua mensagem foi cristalina como a água que banha as paradisíacas praias cubanas. O povo cubano vive sob um regime de opressão há quase quatro décadas, milhares de famílias padecem o trauma da separação e do exílio; não há imprensa independente, não existe liberdade de opinião e muito menos de expressão, o cotidiano da Nação é comandado sem piedade pelo Partido Comunista, através dos Comitês de Defesa da Revolução. E o país ainda não foi à falência, o que parecia inevitável após o desmonte da União Soviética, graças a aproximadamente 1 bilhão de dólares enviados todo ano pelos exilados de Miami - onde formam uma subnação - a seus familiares em Cuba. Uma incipiente indústria de turismo completa o milagre, atraindo a cada dia mais visitantes de todo o mundo.
Fidel, que acompanhou compungido e obsequioso as principais celebrações de João Paulo II, teve, portanto, seu desejo atendido. O papa condenou o isolamento a que Cuba está submetida. Caberá ao comandante, agora, dar início - urgentemente - ao processo de abertura de Cuba para o mundo. E isto só será possível quando o povo cubano puder pensar com liberdade, organizar-se com liberdade, produzir com liberdade.
A missão de João Paulo II em Cuba está concluída. Começa agora a mais árdua missão de Fidel Castro.





