Pelo simples fato de haver falado uma série de bobagens, pensando que o microfone estava desligado e ninguém estava ouvindo, no intervalo de uma entrevista, o então ministro Rubens Ricupero acabou perdendo o cargo e criando um bocado de confusão para o governo. Todo o acontecimento provocou muita celeuma e não poucos censuraram os que se aproveitaram da incontinência verbal do sr. Ricupero, entendendo que não era o caso de se questionar um ministro por causa de uma brincadeira, ainda que de péssimo gosto. Todavia, a lição real do episódio é precisamente aquela relativa à idoneidade que se exige de todos quantos ocupam cargos de responsabilidade numa democracia. Pode parecer abusivo, mas a verdade é que o homem público enfrenta este desafio, o de ser íntegro durante as 24 horas do dia, sendo esta integridade exigida até mesmo nos seus mais simples comentários. O homem público, ao contrário do cidadão comum, não pode dizer que tem ‘aquilo roxo’, como o fez, num destempero histórico, o então presidente Fernando Collor, como também não deve chamar de ‘vagabundo’ quem se aposentou com 50 anos, o que foi feito pelo atual presidente e que lhe custou bem caro. Na verdade, há quem exija até uma conduta moral ilibada mesmo antes de o cidadão se tornar político, como se viu na reação em face da denúncia de uma filha bastarda do candidato ao segundo turno das eleições presidenciais, em 90, Luiz Inácio Lula da Silva. Seguramente, perdeu então muitos e preciosos votos.
As duas denúncias explodiram esta semana. Uma, envolve escuta de telefones entre membros do governo, incluindo o presidente da República. E outra, uma possível conta bancária fantasma no paraíso fiscal de Ilhas Cayman, muito usado por traficantes e outros interessados em esconder dinheiro sujo, que teria igualmente como titulares membros da administração federal do governo (entre os quais o próprio FHC). Ambas as denúncias são bem mais sérias do que as palavras tolas de Ricupero ou as explosões dos dois Fernandos. Envolvem a própria essência da moralidade de algumas das mais importantes figuras públicas da atualidade, como o presidente Fernando Henrique Cardoso, o ministro José Serra, Sérgio Motta (já falecido), o governador reeleito de São Paulo, Mário Covas - o caso do paraíso fiscal - o atual ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, o presidente do BNDES, André Lara Resende, além de outros menos importantes, no caso do grampo telefônico. E criam uma dúvida e uma situação não só inaceitável, mas verdadeiramente insustentável.
Sabe-se que é fácil criar boatos, dizer mentiras e que quanto mais poderosos são os homens maior é o risco de que sejam vítimas de calúnias as mais torpes. E é óbvio que prevalece sempre o princípio legal e democrático segundo o qual quem acusa é que deve provar e que todos são inocentes até que se prove a culpabilidade. Entretanto, quando homens do governo são alvo não só de acusações, mas, ao que se informa, também de tentativa de chantagem em relação aos fatos, é fora de dúvida que se reclama uma total apuração de ambos os assuntos.
Interessa ao governo, aos envolvidos diretamente nas denúncias e ao povo, que afinal é o verdadeiro detentor do poder, todos os esclarecimentos possíveis para que não paire nenhuma dúvida. Não se pode esquecer que o grande trunfo do governo federal, desde que assumiu há 4 anos, foi a confiança plena da população, que tem se empenhado com fervor nas suas campanhas e aceitado os sacrifícios que o momento impõe. Também por isto, é necessário que ambos os casos sejam investigados e resolvidos, sem o que ficará uma dúvida terrível sobre todo o governo brasileiro.

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