Há duas coisas que os brasileiros (especialmente os 55 milhões que moram nos nove Estados atingidos pela blecaute na noite de quinta e madrugada de ontem) querem e têm o direito de saber: primeiro, o que aconteceu, o que foi que provocou aquela inesperada situação; e o que será feito para que um episódio de tal magnitude não se repita. O lamentável, porém, é que, pelo menos até a tarde de ontem, não havia respostas. O ministro das Minas e Energia, no afã de tranquilizar a população, já antecipou na madrugada mesmo de ontem, em entrevista à TV, que o ‘apagão’ (certamente um neologismo nacional para se contrapor ao termo usado até agora, que é estrangeiro) não se repetiria. Como, porém, naquele momento, ele não sabia o que havia provocado a situação, é difícil confiar nesse tipo de informação. Antes de mais nada, é necessário saber exatamente as causas da ocorrência, sem o que qualquer tipo de informação calmante fica sem sentido.
Tivesse o evento ocorrido no chamado horário de pico, haveria pelo menos uma possibilidade de entendimento. Afinal, sabe-se, o Brasil enfrenta uma situação muito delicada em relação à energia elétrica. A falta de investimentos no setor produziu uma realidade que, infelizmente, não tem servido para alertar as autoridades. Os sucessivos anúncios sobre o risco de blecaute, precisamente porque o consumo cresce e a produção não está atingindo os níveis necessários, não estão sensibilizando os que deveriam cuidar do assunto. Na verdade, o Brasil só escapou até agora de uma crise tremenda no setor devido a circunstâncias. A recessão dos anos 80, a paradeira dos anos 90, a realidade atual de um país que não está crescendo como deveria, até para atender às necessidades da população, tais são os motivos pelos quais a situação no abastecimento de energia elétrica não atingiu ainda nível mais crítico.
Ocorre que o blecaute aconteceu em horário calmo, pouco depois das 22 horas, quando não há indústrias funcionando, boa parte da população está se preparando para dormir, o consumo baixa sensivelmente. A conclusão natural é que algum outro problema aconteceu. Nas primeiras horas, não se descartou nem sequer a possibilidade de algum tipo de sabotagem na rede distribuidora, o que aliás já teve precedentes. Como, porém, as notas oficiais a respeito não abordam mais a hipótese, o que se tem é que a ocorrência deve ter como causa uma falha em algum ponto do sistema. Só que, até agora, não há informações precisas, além dos anúncios costumeiros sobre a atividade intensa de todos os envolvidos na questão, desde o ministério até a Itaipu e outros. Por mais que se queira oferecer um crédito de confiança aos responsáveis, a verdade é que a falta de explicações objetivas estabelece uma situação de desconfiança e desconforto.
A sensação dos brasileiros, especialmente os que sofreram os efeitos do blecaute, é de insegurança total. A possibilidade de que aquela situação se repita, inclusive com duração maior, assusta. E por mais que se queira transmitir mensagens que possam servir para tranquilizar os cidadãos, o certo é que na falta de explicações concretas sobre as causas da ocorrência é muito difícil manter a serenidade diante dos fatos.
Quando uma coletividade é atingida por temporais violentos (como vem acontecendo em São Paulo) ou por fenômenos naturais ainda mais sérios, a própria impossibilidade de se evitar esses acontecimentos faz com que as pessoas os aceitem, ainda que com medo. O que se tem agora, porém, é outra coisa. O blecaute ou apagão, ou que nome se lhe dê, decorre de algum tipo de falha no sistema construído pelos homens. É preciso resolver com a maior rapidez o assunto para devolver ao povo a tranquilidade que ele merece.

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