Editorial - Dom Hélder Câmara
Dom Hélder Câmara
A humanidade tornou-se muito mais pobre, sexta-feira, com a morte de um dos maiores expoentes da Igreja Católica brasileira, dom Hélder Câmara, arcebispo emérito de Olinda e Recife, que dedicou 68 anos de sua vida sacerdotal à defesa dos pobres, dos oprimidos, atuação que lhe valeu o apelido de bispo vermelho. Comprometeu-se plenamente com os movimentos sociais, com uma clara opção pelos pobres e por uma permanente defesa dos direitos humanos. Os detratores não o deixaram em paz. Após desenvolver uma ampla obra social no Rio de Janeiro, onde era bispo auxiliar do cardeal dom Jaime de Barros Câmara, conseguiram sua transferência para o Nordeste, como uma espécie de exílio, justamente para Olinda e Recife. Nunca se comprometeu com organizações político-partidárias e jamais deixou de estender as mãos aos perseguidos e injustiçados. Também não se intimidou com os inimigos, que muitas vezes o ameaçaram de morte. O Palácio dos Manguinhos, sede do Arcebispado de Olinda e Recife, e sua casa, localizada ao lado da Igreja de Nossa Senhora das Fronteiras, estavam sempre abertos a todos. Não tinha ódio, mas também não tinha medo. As ameaças de morte que os grupos de extermínio constantemente lhe dirigiam ele as encarava com serenidade, o que desarmava os espíritos dos assassinos, segundo seus seguidores. Em 1969, o jornal norte-americano Sunday Times o considerou um dos homens mais influentes do mundo, ao lado de Fidel Castro.
A vida do ser humano, naturalmente, é assim. Um dia chega ao fim. O que diferencia cada um é precisamente o que faz ao longo do tempo que tem de permanência na Terra. E o que dom Hélder fez foi transformar a própria vida em uma imensa, total e incondicional doação à Igreja e aos mais carentes. Na verdade, uma idéia que se confunde, na medida mesmo em que, como muitos teólogos assinalam, a Igreja é o povo de Deus que é a comunidade dos batizados. Da vocação sacerdotal, dom Hélder fez uma verdadeira vida apostólica. Suas posições em defesa dos humildes, carentes, desassistidos, tem muito a ver com a mensagem Daquele que o chamou à vocação religiosa, Cristo. E de tal modo se comportou nos 90 anos de vida, nos 68 anos de sacerdócio, que poderia repetir o que disse o apóstolo Paulo, em uma de suas Cartas: Já não sou eu quem vivo, é Cristo quem vive em mim. Também nos últimos momentos poderia repetir como Paulo: Combati o bom combate, guardei a fé.
Quando o poeta diz, em um dos mais maravilhosos poemas já escritos, não perguntes por quem os sinos dobram, eles dobram por ti, o que ele quer dizer, como explica no trabalho, é que a humanidade fica mais pobre cada vez que um ser humano morre. É um conceito de humanismo que valoriza a vida humana. Todavia, é fora de dúvida que diante de alguém com a estatura cristã e humana de Hélder Câmara o conceito expresso no poema ganha dimensão universal. O mundo está mais pobre, a Igreja está mais pobre, o Brasil está mais pobre. Os carentes, que foram a preocupação e a constante luta do sacerdote, estão um pouco mais desamparados. Dom Hélder deixa um vazio tão imenso, só comparável talvez ao que ficou com a morte de Irmã Dulce, na Bahia, ou de Madre Teresa de Calcutá. São personagens fulgurantes de amor e doação que, também por isto, provocam um sentimento de perda incomensurável. Entretanto, suas vidas, seus exemplos, toda a doação que marcou suas passagens, ficam como herança e pista para que outros os sigam e continuem. Os pobres e desamparados, que foram preocupação constante de Hélder Câmara, precisam que outros assumam agora o facho e continuem a ser, como ele foi, sal na terra, fermento na massa e luz no mundo.





