Editorial - Doença não tira férias
Doença não tira férias
O calendário é uma convenção humana. Nem todos os países do mundo estão festejando agora o fim do ano. Ademais, em relação aos acontecimentos, problemas e dificuldades continuam a acontecer, independente da data. Pessoas ficam doentes e morrem tanto na semana do Natal quanto na do Ano-novo. A situção dos hospitais, em Londrina, diante da decisão do Hospital Evangélico de deixar de atender pelo SUS, é dramática neste dias. Vale rememorar que a decisão do HE de Londrina não foi adotada ontem. Houve tempo para que as autoridades do setor adotassem medidas para atender aos reclamos daquele hospital. Mas nada foi feito. E agora, não se espere qualquer coisa. As autoridades brasileiras, a começar do presidente da República e passando pelo ministro da Saúde, estão descansando, gozando os feriados, tirando uns dias de folga. Infelizmente, doença e morte não tiram férias, não respeitam feriados, não reconhecem o calendário.
O quadro hospitalar de Londrina, nem seria necessário lembrar, não é diferente do que se observa no País inteiro. É o caos. A saúde está abandonada, os doentes fazem filas nas portas dos hospitais públicos, sofrem diante das dificuldades que enfrentam. Doentes estão sendo postos pelos corredores dos hospitais enquanto médicos, enfermeiros, atendentes do setor, em geral, não tiram férias, não têm tempo para festejar Natal e Ano-novo. Para eles, todos os dias são iguais. E, ultimamente, em Londrina como no Paraná e no Brasil, os dias têm sido difíceis, dolorosos, complicados, sofridos.
O motivo pelo qual o Hospital Evangélico de Londrina resolveu deixar de atender pelo SUS é simples: os valores pagos pelas autoridades para o atendimento representam um verdadeiro acinte, não correspondem ao gasto real dos hospitais. Não é de hoje que se reclamam mudanças, alterações na tabela, um pagamento que seja ao menos compatível com os custos. Ocorre que as autoridades da saúde, que fazem muita divulgação sobre seus feitos, não ouvem os reclamos e insistem em um jogo criminoso em que procuram empurrar o problema para os hospitais e médicos, tentando posar de políticos íntegros, preocupados com a saúde.
Sem dúvida, faltam recursos para atender à multiplicidade dos problemas da saúde no País. Todavia, é certo que com disposição e boa vontade seria possível melhorar, e muito, a situação. O que se percebe, porém, é que falta precisamente vontade. O quadro atual é significativo e até sintomático. Não se fará nada esta semana para resolver o drama dos que procuram hospitais, dos que sofrem acidentes, dos que necessitam de qualquer tipo de assistência à saúde, em Londrina como no resto do País. O que vai haver, sem dúvida, é o sacrifício dos profissionais do setor que continuarão nos seus longos e exaustivos plantões, o sofrimento dos que precisarem de socorro urgente. O presidente, o ministro da Saúde, assim como o secretário estadual de Saúde, todos estarão descansando porque agora é época de férias, ninguém faz nada (no mundo oficial) nestes dias.
O setor governativo brasileiro (incluindo todos os níveis e todos os poderes) continua a vivenciar um calendário diferente daquele vivido pelos brasileiros. Deputados estaduais e federais, senadores, vereadores trabalham em regime escolar, com férias de inverno (em julho) e mais longas férias de verão. Se, por acaso, o País precisa que trabalhem em janeiro, tem de pagar extra. Já os que ocupam cargos executivos, em tese, não têm férias. Mas descansam bastante, como o faz agora o presidente Fernando Henrique Cardoso, e também, sem dúvida, seus ministros, descansando da dura labuta do ano. Como, porém, a fome, a dor, a doença e a morte não tiram férias, é muito dura a situação dos brasileiros.





