Quando eclodiu a crise na Ásia, em novembro do ano passado, levando o governo a editar uma série de medidas, houve uma até inesperada reação do Congresso que, de repente, se mostrou receptivo e disposto ao trabalho. A impressão foi a de que, finalmente, os legisladores federais perceberam sua responsabilidade no processo e resolveram agir. O resultado foi impressionante: o ano estava no fim, houve uma convocação extraordinária, o Congresso trabalhou duro e conseguiu aprovar algumas importantes medidas, dando agilidade ao andamento das reformas. Infelizmente, toda aquela disposição foi se dissipando e, nos meses subsequentes o Legislativo federal voltou à lamentável normalidade. Entretanto, no momento em que nova crise surge no horizonte, trazendo nuvens possivelmente ainda mais carregadas, percebe-se uma aparente disposição do Congresso de retomar o trabalho. Não, naturalmente, neste mês, porque afinal as eleições estão aí, mas depois do pleito. Anuncia-se um novo esforço do Legislativo no sentido de desencalhar as reformas ainda pendentes, falando-se até da possibilidade de se aprovar uma reforma tributária emergencial, o que parecia impensável há algum tempo.
Aparentemente, o Congresso brasileiro funciona na base do choque. E, como se sabe, hoje em dia este tipo de atividade não se recomenda nem no tratamento das doenças mentais. Há muito o eletrochoque deixou de ser considerado válido, preferindo-se outro tipo de ação. O ideal (certamente até o normal) seria que o Congresso realizasse sua parte independente das ocorrências externas. Eleito há quatro anos, na esteira do sucesso do plano de estabilização, o atual Congresso deveria estar comprometido com aquele projeto, o que significa que teria de ter realizado, neste período, as reformas estruturais.
Não foi o que aconteceu. As poucas reformas que se produziram saíram bastante alteradas. O Executivo precisou, quase sempre, usar meios não muito aceitáveis para conseguir que os congressistas apreciassem as mudanças e as aprovassem. Como resultado, o Brasil ficou vulnerável às pressões externas, às especulações, aos temores que invadem outras economias, como se percebeu há um ano e se nota novamente agora. Tivessem as reformas se realizado, como era plenamente possível, toda a situação brasileira seria diferente e até o modo de enfrentar as dificuldades decorrentes da crise externa haveria de ser diverso. Todavia, em face da inação do Legislativo, vive-se de novo em suspense.
Nada contra o Congresso resolver trabalhar em outubro, esticar em novembro, fazer enfim alguma coisa neste final de mandato. Ocorre, porém, que as coisas não deveriam funcionar deste modo. E o povo sabe disto e o percebe muito bem. Esta é, sem dúvida, uma das razões para os comentários críticos sobre a ação dos políticos e também para a avalanche de votos em branco e nulo nas eleições legislativas. A idéia de muitos chamados homens públicos sobre a falta de inteligência do povo é errônea e perigosa. Demora um pouco, mas o eleitor acaba percebendo as coisas e agindo, como já o fez nos anos 70 e começo dos anos 80.
Abraham Lincoln, um dos mais importantes presidentes dos Estados Unidos, deixou cunhada uma frase lapidar a respeito: pode-se enganar alguns muito tempo, e muitos pouco tempo; mas não se pode enganar todos o tempo inteiro. Esta aparente volúpia do Congresso em trabalhar, anunciada às vésperas das eleições, dá a impressão de uma tentativa de ludibriar os verdadeiros donos do poder, o povo, o eleitor. Pode até funcionar, mas o crédito dos políticos está se esgotando. É bom que, de fato, comecem a realizar a tarefa que pediram à população, pelo voto, há quatro anos.

mockup