Discurso desnecessário
Uma das práticas mais comuns do período ditatorial foi a convocação de redes de rádio e TV para anúncios relativos às atividades do governo. Ao longo dos 21 anos da ditadura, era comum a ocorrência: programas de TV e de rádio eram interrompidos para uma transmissão em cadeia nacional, quase sempre por parte do general-presidente da época, com informações mais ou menos importantes. O país contava à época com uma eficiente rede de comunicações, com jornais que figuravam entre os mais respeitados do mundo, com televisoras e emissoras de rádio que cobriam totalmente o Brasil. Mas, naturalmente, havia a censura. A imprensa não podia divulgar o que se passava. Nem era do interesse dos detentores do poder revelar tudo o que faziam. O que pretendiam, porém, com as transmissões obrigatórias por rádio e TV era mostrar sua versão dos fatos, fazer a propaganda para atingir uma população que era impedida de saber o que realmente se fazia nos recônditos escaninhos da ditadura.
Com a redemocratização e o restabelecimento da liberdade de imprensa, esta prática deveria ser abandonada. Não o foi, infelizmente, restando como uma das muitas facetas daquilo que o então presidente José Sarney chamou de ‘‘entulho autoritário’’. O próprio Sarney, como seus sucessores, acabou usando ‘redes nacionais’ para falar dos feitos e projetos de seu governo, algo desnecessário mas que parecia importante para os governantes. E agora, dentro mesmo desta idéia, o presidente do Senado, sr. Antônio Carlos Magalhães, anunciou, em seu discurso na instalação da nova sessão legislativa, que ele e o presidente da Câmara, Michel Temer, convocarão uma rede de rádio e televisão para defender o trabalho que o Congresso tem executado. ACM insistiu em que muitos não reconhecem esse trabalho e vê nisso uma contribuição ao enfraquecimento do regime democrático.
O uso dos meios de comunicação, segundo o senador, terá o objetivo de levar esclarecimentos sobre o trabalho dos parlamentares à opinião pública. Uma intenção correta, mas desnecessária. O povo tem sido muito bem informado sobre a atividade legislativa, assim como a respeito do trabalho do Executivo e do Judiciário. O Brasil, repita-se, tem hoje uma excepcional rede de comunicações, a TV (ainda mais com o uso dos satélites) atinge todos os pontos do território nacional, o rádio, ainda com maior facilidade, chega a qualquer parte. E há os jornais, as revistas, a Internet, que embora não sejam acessados pela maioria, igualmente cobrem todo o espectro das atividades públicas, dando à população uma cobertura plena sobre o que fazem e também a respeito do que não fazem os que governam, em todos os ramos do Poder e em todos os seus níveis.
Convocar rede nacional de rádio e TV para informar sobre o que tem sido feito pelo Congresso é desnecessário e, em certo sentido, abusivo. As afirmativas do presidente do Senado no sentido de que há quem queira enfraquecer a democracia, com informações negativas sobre a ação do Legislativo, são discutíveis. O que se tem destacado muito neste começo de ano – como já ocorreu no ano passado – foi a convocação extraordinária do Congresso e o custo disto para o povo. Esta realidade não pode ser desmentida pelo presidente do Senado. Nem a informação a respeito deve ser considerada manobra para desmoralizar o Poder ou a democracia. Quem tem criado problemas para o Legislativo são, infelizmente, os próprios membros do Poder, com seus abusos, seus privilégios, suas vantagens. Basta que cumpram o seu dever como representantes do povo, que não precisarão de redes de rádio e TV para se justificar ante uma população que quer apenas isto de parte deles.

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