Editorial - Dirigentes cristãos
Para muitos analistas políticos, o sr. Fernando Henrique Cardoso perdeu as eleições para prefeito, em São Paulo, no passado, por um simples detalhe: ousou dizer, em entrevista fartamente divulgada, que era ateu. Pode ser que ele tivesse perdido de qualquer modo, até porque enfrentou na ocasião o sr. Jânio Quadros. Mas é certo que considerou o fato como importante, de tal modo que mudou sua postura e se hoje não se apresenta como um crente fervoroso, pelo menos não alardeia convicções ateístas. Percebeu que boa parte dos eleitores quer um político que crê em Deus. Porque senão, pode ser que o candidato considere a si como tal.
Se no Brasil a situação é esta, nos Estados Unidos é mais séria ainda. Não se imagina sequer um presidente norte-americano que seja ateu. Eles não só devem ser religiosos como têm de ser praticantes. De preferência, devem ser protestantes. Mas é possível que sejam católicos (como John Kennedy). O que não se concebe é que sejam ateus. E se no Ocidente cristão é assim, no Oriente em que predominam o islamismo ou, como em Israel, o judaísmo, a questão é mais séria. Os dirigentes políticos têm de ser religiosos, precisam professar a fé. Claro, o premier israelense não precisa ser um judeu radical, mas deve, necessariamente, manter a crença judaica. E nos países islâmicos, é fundamental que sejam seguidores dos preceitos de Maomé. Excluindo os países comunistas (hoje tão poucos no mundo), ter alguma religião é quase um imperativo para os políticos.
Ora, se todas as religiões têm princípios éticos elevados, são basicamente direcionadas no sentido do crescimento humano, ensinam a amar, a repartir, a respeitar o semelhante, e se os dirigentes das nações precisam ser religiosos, a consequência natural seria a de que os países todos estão buscando garantir aos cidadãos a dignidade de uma condição humana justa. Em relação aos países cristãos, por exemplo, que nesta época se curvam diante da humilde manjedoura em Belém, seria justo pensar que todos eles tenham uma política justa. Não se consegue entender, por exemplo, que dois países cristãos do porte de Estados Unidos e Grã-Bretanha marquem a véspera do Natal lançando centenas de bombas contra um país muçulmano, bem às vésperas do Ramadã.
Por isto é que, sem dúvida, o Mahatma Ghandi, o homem que enfrentou e venceu o poderio do Império britânico, logrando tornar a Índia independente, disse em dado momento que se os países cristãos (considerando naturalmente a Grã-Bretanha) agissem como Jesus ensinou, o mundo seria um paraíso. É certo que Ghandi travou sua grande luta em outra época, quando o colonialismo era algo com que o mundo vinha convivendo desde a descoberta do novo Mundo, pelo menos. Mas é certo que, mesmo assim, observando a História, viu-se muita coisa absurda ser feita, em nome dAquele que nasceu em Belém e foi crucificado em Jerusalém, mas que ressuscitou e lançou para os homens a mensagem de Amor pleno.
No dia de Natal, quando os cristãos dobram os joelhos diante do Menino, fica uma impressão de dualidade, principalmente em relação aos que decidem o destino dos outros homens: se são cristãos, não estão agindo como tal, se não são, mentem. É melhor pensar que não sejam mentirosos, mas estejam cegos pelo poder, pela vaidade, pela cobiça. E desejar que neste Natal caiam as vendas de seus olhos (como aconteceu com Paulo, na estrada de Damasco) e passem a ser Cristãos. Seria, sem dúvida, o melhor presente de Natal para os seres humanos nos países por eles governados.





