No relatório anual referente a este ano, a Anistia Internacional afirmou que crueldades e injustiças continuam a predominar no mundo, apesar da adoção, em 1948, da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). ‘‘Para a maioria das pessoas do mundo, os direitos da DUDH são pouco mais do que promessas no papel’’, diz Pierre Sane, secretário-geral da Anistia. ‘‘Motivados por conveniência política e interesses próprios, governos continuam a pisotear os direitos de seus cidadãos a fim de manter o poder e privilégio de poucos’’, ele acrescenta. A Anistia documentou abusos em 141 países, que vão de pobreza extrema à tortura. No documento, o grupo, baseado em Londres, assinala que muitos governos apenas falam sobre direitos humanos, 50 anos depois de terem se comprometido com um mundo melhor. Para a Anistia, as promessas de 1948 - quando governos se comprometeram a trabalhar por um mundo sem crueldade e injustiça - parecem ter sido enterradas. Desde que os governos se mostraram tão descomprometidos, a Anistia exigiu que corporações pressionem com o peso de sua influência, dizendo que ‘‘o silêncio de poderosos interesses empresariais frente à injustiça não é neutro’’.
O relatório documentou execuções extrajudiciais em 55 países, desaparecimento de pessoas em 31 países, tortura ou maus-tratos pela polícia e outras autoridades estatais em 117 países, prisioneiros de consciência em 87 países, prisões e detenções sem acusação ou julgamento em 53 países, assassinatos deliberados e arbitrários de civis, tortura e tomada de reféns por grupos oposicionistas armados em 31 países.
Tortura e execuções extrajudiciais foram registradas em toda a América, onde a Anistia afirmou que defensores dos direitos humanos tornaram-se eles próprios vítimas de abuso. No Brasil, segundo a Anistia, centenas de pessoas morreram nas mãos da polícia e dos esquadrões da morte vinculados às forças de segurança. Verificaram-se também no País ameaças e agressões a defensores dos direitos humanos, sendo que os agressores continuam gozando de impunidade. De acordo com o levantamento, a tortura e os maus-tratos policiais eram práticas generalizadas. A Anistia criticou também o fato de várias pessoas, entre elas ativistas partidários da reforma agrária, terem sido processadas, aparentemente por motivos políticos. Os Estados Unidos foram criticados pelo uso considerado abusivo da pena de morte.
Na África, foi dito que conflitos armados e distúrbios levaram a violações ‘‘intimidantes’’. Poucos são responsabilizados e os perpetradores podem agir com impunidade. ‘‘Desafios aos universais e indivisíveis direitos humanos prevaleceram em toda a região do Pacífico Asiático’’, afirmou a Anistia, que expressou preocupação sobre o efeito da crise econômica da região sobre a situação. Maus-tratos por parte das forças de segurança, polícia e autoridades estatais encabeçam as violações na Europa, onde vítimas morreram em consequência de torturas em pelo menos cinco nações. Milhares sofreram tortura sistemática ou morte ilegais no Oriente Médio, constatou a Anistia, que relatou julgamentos injustos em toda a região e no Norte da África. ‘‘Punições judiciais cruéis e desumanas, como amputações, chicoteamentos e apedrejamento, foram amplamente impostas em vários países da região do Golfo Pérsico.’’
Um quadro geral de desrespeito à dignidade humana, em todos os continentes, reclamando, como insiste a entidade londrina, uma nova tomada de posição do mundo em defesa dos tão violentados direitos humanos, em todo o mundo. Um documento que precisa ser não só lido ou comentado, mas que tem de levar a uma ampla reflexão sobre a situação do ser humano no mundo em que vive.

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