Dinheiro em circulação
A primeira parcela do 13º salário, a ser paga hoje a todos os trabalhadores no mercado formal que não a tenham recebido na época das férias, cria uma expectativa otimista no comércio, que espera, como de costume, recuperar no fim do ano as perdas de um período realmente difícil. Alguns setores apostam em crescimento de 20% nas vendas da época natalina, em comparação com o faturamento do ano passado. Não se sabe precisamente de onde é retirada esta perspectiva, uma vez que o emprego não cresceu ao longo do ano e não houve também significativa elevação salarial, apesar de certas indicações sobre tentativas de indexação em alguns dissídios coletivos ocorridos mais recentemente. Possivelmente, esta projeção reflete o sentimento de um setor que necessita faturar, como um imperativo mesmo de sobrevivência.
Se vai ou não ocorrer este aumento esperado nas vendas, só será possível saber no final de dezembro. De qualquer forma, a esperança de uma melhoria no faturamento faz parte da época, acreditando-se ademais que o apelo relativo ao início do ano 2000 possa atingir de modo mais direto o consumidor. Embora a data não marque – como alguns ainda acreditam – o fim do século e do milênio, é certo que o ano que se abre tem por si imenso apelo, inclusive o da religião, que celebra 2 mil anos de Jesus. Tudo isto, porém, pode se frustrar diante de uma situação real que não chega a ser muito alentadora. O 13º salário vai, sem dúvida, acrescentar importante volume de dinheiro em circulação, o que por si só representa um fator positivo na economia. Entretanto, há a considerar a destinação que os trabalhadores pretendem dar a este salário a mais e também os problemas todos que surgiram ao longo do ano.
De fato, para muitos assalariados o 13º surge mais como uma espécie de bônus para resolver dificuldades que foram se acumulando durante os últimos meses. Especialistas, inclusive, aconselham a que se use, pelo menos esta primeira parcela, para amortizar dívidas antigas, sair do ‘vermelho’ em contas especiais, acabar com débitos em cartões ao invés de gastar mais. Os juros, que continuam elevados, representam um reforço imenso à argumentação dos que sugerem que primeiro se paguem dívidas antigas para depois pensar em gastar. Na verdade, boa parte dos entendidos passa ao largo dos conselhos relativos ao consumo, sugerindo que se houver sobra, depois de pagar os atrasados, os trabalhadores devem é levar o dinheiro para algum tipo de investimento.
Ocorre que consumir é uma forma de investimento altamente rentável. Com efeito, o giro do dinheiro no comércio produz efeitos importantes, que podem ir além até do fim de ano. De fato, o consumo reproduz riquezas, cria condições para o surgimento de empregos, abre perspectivas para a indústria, na necessária reposição do que for adquirido agora, enfim cria condições para o aquecimento necessário da economia numa época de restrições e em que a recessão continua a ser o grande desafio.
Naturalmente, o pagamento de dívidas, que reduz a inadimplência, tem também certo efeito positivo sobre o comércio e a indústria, como uma recuperação necessária de recursos que pareciam perdidos. Todavia, para o processo econômico é importante que o consumo ocorra, provocando toda a cadeia positiva que o comércio produz. O volume de dinheiro que entra hoje na economia, adicionado ao que será injetado até o dia 20 de dezembro, representa uma expectativa positiva em um momento difícil. E, mais que isto, pode até melhorar as perspectivas e expectativas para o tão próximo ano 2000, que, dizem, será melhor para o Brasil.

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