Seguramente, os brasileiros esperavam estar terminando este ano em situação bem melhor do que a que está sendo vivenciada pela maioria. No começo deste 1998, o Brasil tentava sair da crise e dos efeitos do famoso pacote de novembro de 97. Os juros estavam elevados, as reformas não haviam se concretizado, mas existia uma esperança decorrente até da reação em face dos problemas surgidos com a crise da Ásia, que provocou a edição de uma série de medidas duras por parte do governo. Os políticos se mostravam dispostos a enfrentar com seriedade suas obrigações e a própria perspectiva do ano eleitoral tornava positiva a esperança de que as dificuldades seriam superadas e o Brasil chegaria ao final do ano em uma situação mais confortável, a luz no fim do túnel parecia um pouco mais próxima. Hoje, no último dia do ano, o próprio túnel dá a impressão de não ter fim e até mesmo o bom desempenho na estabilização da moeda, que faz com que se feche 98 com um índice inflacionário inferior a 2%, não chega a servir como alento porque a recessão embutida, a crise renovada, as dificuldades ampliadas, tudo provoca um sentimento de desânimo.
De fato, o balanço não parece auspicioso. Os juros estão hoje mais elevados do que há um ano. A nova crise, agora a da Rússia, atingiu em cheio o Brasil, provocando fuga de dólares e um pânico terrível. Os bons sinais do começo do ano, dados pelo Congresso e que indicavam a possibilidade da conclusão das reformas estruturais, se revelaram prematuros. Não só muita coisa ficou sem fazer como algumas medidas vitais, incluindo a contribuição dos inativos do serviço público, foram rejeitadas pelos congressistas. A reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso foi tranquila, mas é até difícil saber se isto ocorreu como resultado de um trabalho que agradou à maioria ou se a preocupação com as dificuldades levou o eleitorado a preferir ficar com o que poderia parecer o menor dos males.
O que salta aos olhos, na análise do que aconteceu, na observação da atual realidade, na percepção sobre as dificuldades que virão é que o Brasil não pode mais se permitir a perda de tempo que tem sido quase uma constante em sua história. O tão propalado ‘país do futuro’ precisa se tornar a potência do presente. O que, sem dúvida, pode reverter esta situação e mudar as perspectivas. É valioso perceber, ademais, neste balanço com muitos aspectos negativos, um fator positivo fundamental: os maiores sucessos obtidos ao longo do ano decorreram da vontade do povo, da disposição e da coragem dos cidadãos, em todos os setores. Apesar das dificuldades, muitas decorrentes de falhas oficiais, houve alguns avanços. Os brasileiros já não aceitam mais as coisas com passividade e lutam para mudar o quadro desfavorável. Nos últimos dias, debates envolvendo lideranças empresariais e trabalhistas deram a indicação clara de uma vontade concreta de buscar soluções em meio às dificuldades. Alternativas foram propostas, canais de comunicação estão sendo estabelecidos junto às autoridades, há um caminho que precisa ser trilhado e que representa, sem dúvida, a base sobre a qual se pode trabalhar com a convicção de se superar as atuais dificuldades.
Talvez seja chegado o momento de se considerar que o Brasil está no fundo do poço, o que significa que não pode (e nem quer) cair mais. Agora, a hora é de retomar a subida, assumindo as dificuldades naturais. É uma situação que sem dúvida vai exigir mais sacrifícios e luta. Mas se houver a necessária união com este propósito positivo, será possível esperar que o próximo ano possa ser melhor do que este que está terminando.

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