Ao mesmo tempo em que a maior parte das Prefeituras anuncia que não tem como pagar o 13º salário de seus funcionários, o que também acontece em alguns Estados, divulga-se a notícia que os deputados estaduais vão receber algo em torno de R$ 12 mil, neste final de ano, em função de uma convocação extraordinária que deve ir de 16 de dezembro a 5 de janeiro. Seguramente, são sérias as necessidades que obrigam o Executivo a efetuar a convocação, assim como não se discute a importância do trabalho dos deputados estaduais. Entretanto, não há como fugir à percepção sobre um quase paradoxo neste país em que uma imensa maioria enfrenta tremendas dificuldades e incertezas enquanto alguns privilegiados passam incólumes e continuam a usufruir de vantagens.
Na verdade, se todo o problema se resumisse a esta simples questão de um gordo ‘Papai Noel‘ para os deputados, enquanto milhares de funcionários públicos não sabem se vão ter 13º (sem contar os que não têm recebido nem o salário mensal normal), ainda seria possível, com um certo esforço, aceitar justificativas. Ocorre que a questão é muito mais ampla. Recentemente, foi possível acompanhar o grande debate em torno da fixação de um teto para os vencimentos dos mais altos escalões da República. Não houve consenso porque era grande o número dos que consideravam que os limites propostos (algo em torno de R$ 12 mil a R$ 13 mil mensais) eram insatisfatórios. Do alto de aposentadorias especiais, da soma de uma série de privilégios auto-outorgados, os marajás que conseguem receber por mês o que um trabalhador salário-mínimo não ganha em 35 anos de trabalho, insistiam em defender os chamados ‘direitos adquiridos’, sem sequer evidenciar sensibilidade para o drama da maioria dos brasileiros.
Houve também, recentemente, a divulgação dos vencimentos dos deputados em vários Estados, todos atingindo somas elevadíssimas, na altura mesmo do limite que se pretende estabelecer, mas que enfrenta a ira dos beneficiados, sem contar, claro, as vantagens imensas que os representantes do povo se auto-outorgam para cumprir os seus deveres junto à população. São valores altos, ainda mais se cotejados com o salário médio da população que, no fim, é quem paga todas estas vantagens.
Por causa disto também é grande a revolta do povo, que acaba se tornando cada vez mais descrente em relação aos políticos. Esta falta de sensibilidade ante a situação real da população, esta distinção terrível que existe entre o Brasil que trabalha, que luta, que produz, e alguns privilegiados que auferem ganhos e vantagens imensas, constitui um verdadeiro acinte à própria democracia, na qual, supõe-se, ‘todos são iguais perante a lei’. Pelo visto, esta igualdade não é levada em conta quando se trata dos que ascendem a postos eletivos, seja no Executivo ou no Legislativo.
O pior que pode acontecer a uma democracia é, sem dúvida, a falta de confiança do povo nos que governam e, por extensão, no próprio regime. E é certo que diante desta separação, deste fosso que existe entre a população e os governantes, vai se cavando também a sepultura para um regime que é, sem dúvida, o melhor e mais justo, mas que vem sendo destroçado, de dentro, pelos que insistem em transformar mandatos em sinecuras e que não se envergonham ao adotar medidas para conseguir cada vez mais benefícios. No momento em que tantos sacrifícios são lançados sobre os brasileiros é justo esperar que os representantes do povo assumam também sua parte. O que, pelo visto, não está acontecendo em nenhum nível.

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