A população e as empresas estão transferindo renda para o governo em decorrência do aumento de impostos e contribuições pagos, demonstrando que é o próprio Estado que está tornando praticamente impossível a retomada do crescimento econômico. O diagnóstico foi feito pelo economista Lauro Faria, redator-chefe da revista Conjuntura Econômica, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e constitui por si um alerta sobre o quadro econômico que o País vive. Segundo Faria, o governo está tirando dinheiro das empresas, reduzindo a capacidade de investimento delas, e da população, que assim fica com menos renda para o consumo. Ao mesmo tempo, a máquina governamental é pouco eficiente em seus gastos e se apropria de uma receita que do ponto de vista do crescimento econômico acaba se mostrando estéril. Com uma agravante: está aumentando o tamanho do Estado, pela elevação de gastos, e simultaneamente vai aumentando também o rombo em suas contas.
Com isso, o risco financeiro do País está crescendo acentuadamente, no entender do especialista. Atualmente, a preocupação maior dos grandes bancos estrangeiros em relação ao Brasil já nem é mais o déficit externo, mas o déficit público, porque se sabe que nenhum governo pode manter uma situação tão drástica como esta por muito tempo. Assim, o preço do risco de investir no Brasil, seja em empresas, seja no mercado, torna-se tão grande que, como resultado natural, as taxas de juros também precisam ser elevadas, para cobrir esse mesmo risco. O governo, no entender de Faria, está fazendo um crowding-out, isto é, está expulsando o setor privado da economia. ‘‘Esta política econômica não é amigável para investimentos e, portanto, também não é amigável para o crescimento, e não pode durar muito.’
A conclusão do economista é idêntica à de quantos se debruçam com isenção e responsabilidade sobre a situação brasileira. Na verdade, o Brasil, com o sucesso do Plano Real, entrou em uma nova e importante fase de sua vida econômica, com todos os efeitos disto decorrentes. Na época da inflação incontida, o País conseguia, através uma série de artifícios (popularmente chamados ‘jeitinho’), evitar muitas catástrofes anunciadas diante do descalabro da economia. Mas, agora, exatamente porque a moeda brasileira entrou nos eixos, os ‘jeitinhos’ já não funcionam e as consequências de eventuais desacertos podem ser tremendas.
Quando se lançou o plano de estabilização, os ‘engenheiros’ que o projetaram sabiam que o desafio principal era o de acabar com o déficit público, por si o grande fator de risco para toda a economia. E o projeto previa isto, dando inclusive tempo, através de medidas como a criação do Fundo Social de Emergência, para que o Estado se adequasse à nova realidade. Quatro anos depois, tudo funcionou, menos a contenção do déficit público. O desafio de diminuir o chamado ‘custo Brasil’, a necessidade de reduzir despesas, de melhorar o desempenho público, de conter a voracidade do fisco, até mesmo de combater de modo eficaz a sonegação, outro grande desafio de qualquer administração, nada disto se fez de modo eficaz.
Segundo Lauro Faria, o cenário somente não está mais descontrolado porque ainda há privatizações a fazer. E isto, sabe-se, ajuda em certa medida a reduzir o déficit. Todavia, no ano que vem, o grosso das privatizações terá terminado e então o governo enfrentará um dilema. Será necessária a adoção de medidas duras para um eficaz ajuste fiscal, com o corte severo dos próprios gastos, juntamente com a adoção de uma política capaz de reduzir a atual sangria que se faz em relação aos contribuintes. Sem isto, o agravamento do déficit pode ameaçar até mesmo o até agora bem-sucedido plano de estabilização da economia.

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