Editorial - Dia da Mulher
Estudo da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos revela que cerca de 600 mil mulheres, das quais 99% vivem no Terceiro Mundo, morrem todos os anos devido a problemas na gravidez. As mortes ocorridas durante os partos, a gravidez indesejada, a violência familiar, as doenças genéticas e a sexualidade continuam representando um importante risco para as mulheres nos países em desenvolvimento. Na América Latina, 23 mil mulheres morrem durante o parto, número que chega, nos países desenvolvidos, a 4 mil, mas que na África alcança 235 mil e na Ásia, 323 mil.
O trabalho, divulgado em Washington, estima que as gestações não desejadas nos países do terceiro mundo ocorrem em proporções alarmantes. Na Bolívia, este índice é de 56% das gestações; na Colômbia, 48%, porcentagem que também se verifica nas Filipinas. A lista, no entanto, é encabeçada pelo Quênia, com 58%.
Dos 50 milhões de abortos praticados anualmente no mundo, 20 milhões são feitos em condições precárias. Mas, além disso, anualmente 7,6 milhões de bebês nascem mortos ou morrem na primeira semana de vida. Quanto aos novos casos de doenças sexualmente transmissíveis, o número ultrapassa os 333 milhões anualmente, dos quais 36 milhões são registrados na América Latina e no Caribe. Metade dos 333 milhões acontece no Sul e Sudeste asiáticos (150 milhões). Além disso, entre as mulheres que sofrem de alguma dessas doenças e engravidam, 30 a 70% delas transmitem a enfermidade aos filhos.
Tais números são oportunamente divulgados durante a celebração do Dia Internacional da Mulher, que se comemora hoje e que foi precedido, em muitos lugares, de uma semana de debates, estudos e revelações. Eles traçam, melhor do que muitos discursos, uma realidade que, aliás, é a razão de ser do Dia da Mulher.
Pois esta é a situação: as mulheres, em praticamente todo o mundo - embora nos países não desenvolvidos a situação seja pior -, continuam a sofrer discriminação, preconceito, perseguição. A criação de uma data para lembrar e debater esta situação e combatê-la é, sem dúvida, um avanço. Mas os números deixam claro que há um longo caminho a percorrer para se chegar a um nível de dignidade, respeito e assistência aceitável para aquelas que a Vida reservou o papel de fecundar e povoar a Terra.
Uma herança de milênios de segregação, perseguição e desvalorização não pode ser superada facilmente. Se hoje a situação da mulher é muito melhor do que no passado em muitos países do mundo, na maioria elas continuam segregadas e desvalorizadas. E em alguns países são punidas com a mutilação do clitóris, ainda crianças, simplesmente por serem do sexo feminino! Barbaridades como essa são cometidas por motivos ditos religiosos que nem todos os demônios juntos saberiam explicar.
O mundo ainda tem muito que aprender sobre a Mulher e seu significado na matéria visível e na vida invisível - aquela do espírito e que mal podemos vislumbrar através das brumas que se aninham em nossa mente e nosso coração. Há ainda uma longa jornada a cumprir para se atingir o ideal de respeito entre os dois sexos. O Dia Internacional da Mulher é um momento para que se enfoquem problemas e caminhos para soluções.
A sociedade dos machos, que tanto discriminou hipocritamente o sexo feminino, marcando-o com atrocidades e ao mesmo tempo reservando-o para seu prazer particular, é responsável pelo que está aí. Para nossa sorte, neste século as mulheres se levantaram. Seus gritos de libertação ecoam pelo mundo e fulminam sem tréguas a ignorância e o atraso de machos embriagados pela prepotência e por seu próprio abuso. Muito dessa potência renovadora, vale frisar, deve-se aos movimentos feministas, que cumpriram um papel histórico decisivo, por mais discutíveis que tenham sido em certos momentos.
Novos e ingentes esforços devem ser feitos para resgatar, efetivamente e por toda a Terra, a dignidade da mulher como co-autora do concerto humano na vida do planeta que habitamos. Só quando se estabelecer esta igualdade, quando se vencer os preconceitos, é que será possível avançar no rumo de uma sociedade mais justa e plena, que reconheça o valor do ser humano independentemente de seu sexo, de sua cor, de sua religião e de sua condição econômica.





