Editorial - Dia da esperança
Em todas cidades do País estão se realizando festas e homenagens às crianças, nesta semana a elas dedicada. A data - 12 de outubro - deve merecer dos adultos uma profunda reflexão sobre a realidade da infância no Brasil, não só pela miséria em que vivem milhões delas, mas também pelo desafio de educá-las num mundo que está em acelerada transformação e vive uma aguda crise de valores. A criança de hoje está amadurecendo rapidamente, assombrada pela miséria sem limite de idade ao seu redor e desnorteada pela quebra permanente de valores promovida por TVs irresponsáveis, governos ausentes e pais negligentes ou inseguros.
A reflexão dos adultos, dos professores, das autoridades, dos parlamentares, dos governantes e de todos os que se sentem responsáveis pelo futuro do seu país é fundamental para começarmos a mudar um estado de coisas que nos levará ao pior dos mundos - ao mundo em que, um dia, simplesmente a infância não existirá mais. A construção do ser humano se dá na infância, onde se fixam para toda a vida modelos de pensamento, conduta e emoção, num ambiente em que a sensibilidade infantil é a mais preciosa de todas as coisas. É isto que está sob a ameaça de desaparecer e, junto com isto, a própria humanidade do homem.
A sociedade brasileira deve pensar sobre o futuro que quer para seus filhos e isto é o mesmo que pensar sobre o futuro que ela quer para si mesma e para o País. Pensar sobre isto é construir um modelo, um projeto de futuro. Se não soubermos fazê-lo, alguém o fará por nós, talvez o destino, do seu modo cego e irrefletido, lotérico, acidental. O mundo dos adultos não pode permitir esse tipo de loteria com seus filhos, nem abdicar de sua responsabilidade.
Devemos perguntar se queremos, para o nosso país e o nosso futuro, uma infância perdida nas praças das cidades, nos terrenos baldios que servem de casa para milhares de menores abandonados, na exploração que continua a ser feita por toda parte, na prostituição. Se é isso o que queremos, então não é preciso fazer mais nada porque isto já está aí. Mas se não é, então devemos nos instruir, arregaçar as mangas e começar a trabalhar para construir um mundo melhor para eles e para nós mesmos.
Há esforços esparsos para salvar a criança da extinção, inclusive leis de proteção e outras, recentes, que impedem a exploração do trabalho infantil. Mas isto é pouco diante da realidade de miséria, exploração, criminalidade ou inocente alienação mental promovida dentro dos próprios lares pelo desinteresse das famílias e pela imbecilidade das televisões. A criança de hoje não merece apenas a festa, as balas, o doce das homenagens que se repetem todos os anos. Reclama e merece muito mais do que as esmolas dadas nas ruas e que, na maior parte das vezes, servem como desencargo de consciência.
A criança de hoje merece a esperança da reconstrução, o esforço dos adultos para se superarem todas as suas fraquezas e vilezas e levantarem um novo mundo. Se de fato a criança é a esperança do futuro, essa esperança começa agora, pelos pais, pela escola, por governos responsáveis e por uma sociedade saudável, lutadora e confiante. Nosso compromisso básico deve ser o de dar a elas a esperança e plantar-lhes as condições - espirituais e materiais - para que possam realizar os seus sonhos, os grandes e os pequenos e aqueles que nenhum de nós jamais sonhou.
E isto só será alcançado com políticas concretas de apoio, a fim de promover a verdadeira educação de suas almas, de suprir-lhes o alimento, a saúde, o emprego e a vida, em contraposição à miséria, à marginalidade e à morte na total desesperança, como a dessas levas de filhos das ruas que a nossa indiferença gerou e multiplicou. Para estes milhões, nossas desculpas não bastam. O trabalho com todas as nossas energias e a nossa vontade é a única forma de remissão.





