Destempero dispensável
Quando, no último ato arbitrário cometido antes do início da chamada abertura que marcou o final da ditadura, o então presidente Ernesto Geisel fechou o Congresso porque não conseguiu ver aprovada uma emenda constitucional, a atitude era compreensível, embora não aceitável. Presidente por delegação de um poder autoritário, sem formação política, o general Geisel viu uma emenda ser rejeitada por não ter obtido o quórum mínimo exigido, que era de dois terços do Congresso. Quer dizer, teve maioria de votos, mas não passou. Geisel assinalou considerar que aquilo era ‘a ditadura das minorias’, fechou o Congresso, mudou as leis, estabeleceu quórum simples para reformas constitucionais (a metade mais um) e conseguiu ver aprovada sua emenda. De qualquer modo, além de estar no comando em um regime de força, Geisel não tinha a formação política que é de se esperar de um presidente da República.
Não é o que acontece com o atual presidente. O sr. Fernando Henrique Cardoso tem formação política, vivência plena da ação democrática, lutou contra a ditadura, foi por ela perseguido, o que o obrigou a deixar o país, voltou ao Brasil para assumir uma carreira que o conduziu à presidência. Tem, portanto, uma bagagem imensa e um conhecimento bastante vasto sobre a política e também a respeito da politicagem e da demagogia. Nos quase cinco anos como presidente, já enfrentou dificuldades, teve de se submeter a muitos acordos com lideranças políticas e fez concessões para obter a concretização de algumas de suas propostas.
No exercício de sua função, enfrenta também a ação dos opositores. Oposição é um grupo de partidos (e de políticos) que não faz parte do governo. O objetivo dos partidos que estão na oposição é o de conquistar o poder. O dos que estão governando, é o de continuar ali. A luta é constante. E para uma democracia real, é importante uma oposição firme. O Brasil, notadamente o sr. Fernando Henrique Cardoso, não tem tido uma oposição muito forte. Uma das causas é precisamente a negociação pela qual FHC conseguiu reunir uma grande maioria de partidos na situação. Quando os partidos que apóiam o governo se unem, a oposição não tem como vencê-los. O que lhe resta é o que tem feito: vai a público para questionar, reclamar, denunciar, criticar. Este é exatamente seu papel.
Quando deblatera contra a oposição, chamando-a, entre outras coisas, de ‘irresponsável’, ‘injusta’, afirmando estar ‘usando de má-fé para enganar o povo’ o presidente baixa o nível e, em certo sentido, se iguala aos totalitários que não tinham a visão da política, para quem opositores não eram adversários e sim inimigos. A oposição por vezes abusa em certo sentido, mas se não fere a lei, se não incide em atitudes passíveis de punição legal, está precisamente no seu papel. Que é, importa assinalar, mais difícil, inclusive porque implica em ficar longe do inebriante poder, sem contar com as tantas benesses que este oferece.
O Brasil deve muito aos corajosos da oposição política que enfrentaram a ditadura nos duros anos da Revolução. Gente que enfrentou aqui as dificuldades na luta contra o totalitarismo, pagando o preço muitas vezes desta opção. E foi esta ação que propiciou condições para que o País voltasse à senda da democracia. Hoje, em uma situação diferente, é mais fácil ser oposição. Entretanto, continua a ser uma opção de luta que não pode ser colocada no patamar marginal que os comentários do presidente ensejam. O destempero de linguagem (ou de atos) reduz a estatura daquele que ocupa o mais importante posto eletivo no País.

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