No tempo, ainda não muito distante, da inflação exacerbada, as leis da economia não funcionavam entre nós, o que é até natural. Por aqui, podia haver falta ou excesso de produtos, os preços subiam sempre. Aquele famosa e simples lei segundo a qual quando a procura cai e a oferta aumenta os preços baixam, simplesmente não parecia existir no Brasil. Mas, então, veio o plano de estabilização, a moeda se tornou estável, a inflação foi caindo até chegar ao mínimo registrado no ano passado, menos de 2% em todo o período, e as coisas começaram a mudar. Quando houve falta de arroz e feijão, aqueles produtos subiram de preço. O mesmo ocorreu na época em que se reduziu a safra de soja, com uma alta acentuada no preço do óleo. Em relação às frutas, então, fora da época os preços eram altos. Mas quando a produção do arroz e o feijãp voltou ao normal, quando a soja reapareceu no mercado, os preços baixaram. E em relação às frutas, o brasileiro até aprendeu: compra as da época, sempre barato, bem em conta.
Curiosamente, esta lei parece não estar funcionando em relação à indústria automobilística nacional. Os pátios estão cada vez mais cheios, mas os preços sobem. Uma das razões é própria da estupidez oficial: o IPI, que foi reduzido inclusive para estimular o mercado, voltou ao nível anterior. E se o imposto sobe, o preço acompanha. Mas há também uma parte que vem das fábricas: estão com muito estoque, todavia não pensam em baixar os preços. A alegação é a de que não há como baixar, os encargos são elevados, a indústria alega que está no limite. E, para enfrentar as dificuldades, demite, como fez a Ford, que enfrenta uma curiosa greve de funcionários que não aceitam a demissão e invadem a fábrica todos os dias em busca do trabalho que lhes foi retirado. A impressão é a de uma verdadeira loucura: a procura caiu, os preços subiram, os empregados são demitidos mas se negam a aceitar a demissão.
O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Marinho, tenta explicar as coisas, dizem que as 2,8 mil demissões da Ford refletem um problema de mercado e não de reestruturação produtiva. Acontece que a própria empresa alegou reestruturação para efetuar o corte. Segundo Marinho, a montadora tinha 11 mil funcionários, em 1987; 10 mil, em 1995, quando se separou da Volkswagen; e, hoje, contando os demitidos, tem pouco mais de seis mil. O sindicalista disse que vai tentar convencer o ministro do Trabalho, Francisco Dornelles, em encontro que vai ter com ele, em Brasília, de que o governo deve interferir no caso, mudando a política econômica.
O presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT, Heiguiberto Navarro, o ‘‘Guiba’’, disse que os metalúrgicos de vários estados, especialmente de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, estão programando manifestações de apoio aos demitidos da Ford do ABC. Uma das idéias dos sindicatos de outros estados é promover protestos em revendedoras de veículos da marca Ford. As manifestações estão previstas, inicialmente, para amanhã e sexta-feira. Hoje, no pátio da Ford, em São Bernardo, haverá a Ceia dos Demitidos.
O que falta, porém, é um aprofundamento global sobre o assunto. O governo está errado ao aumentar impostos neste momento. Pior, vai é reduzir ainda mais a arrecadação. O correto seria reduzir, e muito, a carga que pesa sobre a indústria automobilística nacional, com medidas de apoio para comercialização e exportação. Fora disto, esta estupidez diante das leis do mercado será punida pelo consumidor: os preços sobem, as vendas vão continuar caindo. E o resultado será ruim para todos, as empresas não venderão, os trabalhadores continuarão a ser demitidos e o governo arrecadará menos.

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