Atribui-se a Josef Goebbles, ministro de Propaganda do regime nazista e um dos responsáveis pela massificação que acabou levando todo o povo alemão a se curvar ao ditador Adolf Hitler, a afirmativa segundo a qual uma mentira, repetida mil vezes, acaba sendo aceita como verdade. O nazismo usou muito esta tese, martelando seu ideário, criando uma mentalidade distorcida que acabou aceita por milhões na Alemanha e em outros países. Atualmente, com o cada vez maior domínio das comunicações sobre a vida humana, nem mais é necessária a repetição constante de uma mentira para que seja aceita como verdadeira. Basta que o rádio a divulgue, a TV a mostre e, principalmente, que os jornais publiquem para que muitos acreditem. ‘‘A TV deu’’, dizem uns, ‘‘foi publicado no jornal’’, repetem outros, e todos concluem: ‘‘Então é verdade’’.
Por lamentável que isto seja, é efetivo. E, naturalmente, a única fórmula para enfrentar este tipo de situação é a reação imediata, a negativa peremptória, além naturalmente das ações legais que, infelizmente, muitas vezes são demoradas. Mesmo que a mentira apresentada possa parecer a coisa mais ridícula, ainda que as afirmações mostradas pela TV, irradiadas pelo rádio ou publicadas pelos jornais sejam inacreditáveis e inconcebíveis, é certo que sempre haverá quem creia naquilo. E na falta de desmentido, a mentira pode se tornar, para muitos, verdade.
O governo Fernando Henrique Cardoso enfrenta, neste momento, uma situação muito delicada, em face das denúncias relativas à existência de uma conta secreta, em um paraíso fiscal do Caribe, de responsabilidade do próprio presidente, do ministro José Serra, do governador reeleito de São Paulo, Mário Covas e, também, do falecido ministro Sérgio Motta. Quando a imprensa o interpelou, ontem, no Rio, o presidente Fernando Henrique Cardoso negou-se a responder às perguntas e chamou de ‘farsantes e caluniadores’ os que provocaram o escândalo. ‘‘Não quero responder nenhuma pergunta sobre as informações aparecidas nos jornais, quero apenas dizer que sinto indignação e tristeza por essa montagem’’, disse seriamente FHC ao chegar à Escola Naval do Rio de Janeiro. Segundo Fernando Henrique, esse escândalo ‘‘prejudica a credibilidade da Presidência e do Brasil’’. FHC acrescentou que as acusações são tão inverossímeis e ruins que nem vale a pena reagir. ‘‘O Brasil tentou expulsar da vida pública várias pessoas que agora aparecem nas páginas dos jornais com insinuações que prejudicam uma pessoa como eu, que tem 50 anos de vida pública’’, assegurou o mandatário.
A afirmativa do presidente de que as denúncias são de tal modo inverossímeis ‘‘que nem vale a pena responder’’ é perigosa. Não se trata apenas da questão legal envolvida nisto (e a Polícia Federal, segundo se informa, vai iniciar uma investigação a respeito, o que é necessário), mas da observação sobre a reação popular diante de fatos deste naipe. Se o presidente não responder, cabal e vigorosamente, para muitos ficará a impressão de que ‘alguma coisa existe’. E depois que se solidifica este tipo de idéia, vai ficando mais difícil ao acusado se recuperar e, principalmente, restabelecer sua credibilidade.
Independente mesmo da investigação oficial, que é imprescindível, tanto o presidente quanto seus auxiliares e quem mais tenha sido apontado tem é que insistir, publicamente, com toda a força, no desmentido. Isto é tão importante quanto a ação legal, até para que estas supostas calúnias não produzam qualquer efeito ainda mais danoso para os envolvidos e, principalmente, para o Brasil.

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