Um Congresso mais comportado que o habitual forneceu ao Executivo federal aquilo que foi pedido neste início de campanha visando fazer passar o ajuste fiscal: derrubou os destaques da oposição ao projeto de reforma da Previdência. Esta etapa, considerada difícil, passou. Resta a aprovação da redação final da reforma e sua promulgação, o que não deve levar muito tempo. Depois, vem a apreciação do ajuste. Diante do que aconteceu agora, com uma vitória do Executivo até mais fácil do que se esperava, as perspectivas para o futuro imediato parecem positivas. Apesar das muitas discussões em torno da elevação na alíquota da CPMF e de outros itens do ajuste, é de crer que o Congresso, nestes poucos dias que restam até o início do recesso, consiga concordar quase que integralmente com a proposta oficial. Há também a questão do Orçamento Geral da União, que deve ser encaminhado no início da próxima semana, com cortes de R$ 8,7 bilhões previstos no ajuste. Este é outro ponto muito delicado, mas neste momento a impressão é a de que, com algumas concessões, o Executivo vai fazer passar o que pediu neste final de legislatura.
Assim vista a questão, o natural seria considerar com otimismo as perspectivas para o futuro. O ajuste fiscal apresentado pelo Executivo é parte de um plano emergencial destinado a garantir condições para que o País enfrente a crise econômica que parece varrer o mundo. Uma vez aprovado em suas linhas básicas pelo Congresso, o Executivo teria condições para, no começo do segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, lançar-se com vigor à conclusão do projeto geral de reformas estruturais, inclusive a tão esperada, anunciada e adiada reforma tributária, que sem dúvida deverá ser o fato mais relevante do próximo período presidencial.
Entretanto, nem a queda das emendas que permite a aprovação da reforma da Previdência, nem as medidas já anunciadas pelo ajuste fiscal, nem mesmo a expectativa positiva em face do comportamento do Congresso, neste final de ano, serviram para mudar uma certa desconfiança que ocorre no Brasil e no exterior em relação aos rumos que o governo brasileiro está adotando. Fazendo uma comparação entre as situações do México e do Brasil, esta semana, o economista norte-americano Rudiger Dornsbush concluiu que o país sul-americano tem ‘‘má administração econômica’’. Por outro lado, e talvez mais seriamente ainda, o conceituado ‘Wall Street Journal’ assinala que o esperado pacote fiscal brasileiro oferece pouca esperança de que o Brasil possa acabar com o gigantesco déficit no orçamento federal e lançar as bases para uma verdadeira estabilidade cambial.
O periódico analisa os dois pontos mais importantes do ajuste, o aumento nos impostos e o corte nas despesas. E assinala claramente duvidar que o projeto todo alcance os objetivos, tanto por dificuldades políticas quanto pelas próprias consequências das medidas. A mais grave observação do jornal norte-americano, porém, diz respeito ao fato de faltar a todo o projeto o necessário sentido de urgência. Não se diz que o ajuste não é sério, mas falta pouco para se concluir isto.
O que se tem mesmo é a percepção de que o que o governo brasileiro perdeu foi a credibilidade internacional. Por isso é que nem os juros estratosféricos seguraram os dólares no País. Quando um banco oferece juros muito altos, o investidor esperto foge, porque sente o cheiro de quebra. O Brasil hoje dá a impressão de estar oferecendo esta imagem ao mundo. Ou a modifica, ou nem o bem comportado Congresso resolve seus problemas.

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