Descaso com o povo
O plano de estabilização da economia, lançado no último ano do Governo Itamar Franco, muito engenhoso em sua formulação, representou também uma espécie de compromisso assumido perante a sociedade pelo próprio Planalto. O desafio do Governo Itamar Franco era imenso. Tendo assumido em circunstâncias absolutamente atípicas, chamado ao cargo para substituir o presidente afastado e que acabou renunciando para não ter o mandato cassado, o sr. Itamar Franco enfrentou uma situação complicadíssima. Praticamente esquecido durante o governo do titular, Collor de Mello, Itamar chegava a lembrar os vice-presidentes civis do período ditatorial, que não eram considerados como substitutos do titular. Diante de todas as circunstâncias que cercaram sua posse, Itamar Franco praticamente não tinha compromissos. Precisava apenas conduzir as coisas até a eleição e posse de um sucessor. Entretanto, o país enfrentava sérias e tremendas dificuldades, a economia estava seguindo por um caminho verdadeiramente assustador, a inflação atingia alturas e não parecia haver qualquer possibilidade de se mudar esta situação. Desde o governo José Sarney, o país havia enfrentado uma série de choques econômicos, o mais terrível dos quais o lançado pelo antecessor de Itamar, Collor, que se apropriou do dinheiro nacional, inclusive da poupança, em outro projeto falido que só piorou as coisas.
O Governo Itamar Franco precisava agir, mas é certo que pouco se esperava dele. E em fevereiro de 94 surgiu o plano de estabilização, sem choques, sem congelamentos, sem nada do que havia caracterizado outros bombásticos programas econômicos. Era um projeto simples e objetivo, que primeiro tratou de produzir recursos emergenciais – através do Fundo Social de Emergência – necessários para garantir a reforma que viria mais à frente, e que depois cuidou do aspecto mais sério da situação, a indexação. Através de uma indexação plena, estabeleceu-se a base para lançar uma moeda nova, firme e estável, o real. Tudo feito de modo correto e com um resultado impressionante. Não apenas se conseguiu criar uma moeda confiável, como o presidente Itamar Franco logrou até eleger, tranquilamente, seu sucessor, Fernando Henrique Cardoso, o mentor do plano.
Acontece que o compromisso implícito no programa era o das reformas. Sabia-se então que para resgatar a economia, restaurar a credibilidade e acabar com a ciranda terrível da inflação exacerbada, o fundamental seria a realização de profundas reformas estruturais. O Fundo Social de Emergência era o que o nome dizia, uma atitude emergencial. Mas o que iria garantir a estabilidade e dar ao país condições para ter uma economia estável e abrir caminho para o chamado desenvolvimento sustentado seriam as reformas. O sucessor de Itamar Franco foi eleito com este compromisso. E os membros do Congresso que faziam parte do grupo de apoio a FHC, assim como os que entraram no bloco situacionista, estavam comprometidos com este projeto.
Passado todo um mandato, este compromisso não foi cumprido. Algumas medidas (importantes, sem dúvida) foram adotadas, determinadas mudanças já aconteceram. Mas as principais alterações ou não foram feitas ou acabaram tão alteradas que não produziram os efeitos necessários. O presidente reeleito, ainda sob os efeitos da confiança conquistada pelo real, não consegue concluir as reformas. O Congresso formado a partir do último pleito persiste em sua inação. A reforma tributária, sem dúvida o ponto básico para o projeto de estabilidade, não saiu ainda. E, conforme o presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães, não sai este ano. Mais um compromisso fundamental que é deixado de lado, comprometendo o sacrifício de todo um povo.

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