Verdadeiramente chocante a notícia, procedente de Buenos Aires, informando que o governo argentino prometeu ao Fundo Monetário Internacional (FMI) que aposentará, antecipadamente e por decreto, 300 mil pessoas, decisão que atinge somente os funcionários de empresas, e não envolve os autônomos. Com o decreto, o governo autorizará as empresas a demitir livremente os trabalhadores com mais de 60 anos e as mulheres com mais de 55. O motivo dessa medida é remover pessoas consideradas ‘velhas’ no mercado de trabalho para poder substituí-las por jovens que estão tentando encontrar um emprego. Segundo o secretário do Trabalho argentino, José Uriburu, o FMI mostrou-se ‘‘inquieto pelo eventual aumento do desemprego como consequência da recessão e, principalmente, pela dificuldade que as pessoas têm para poder recolocar-se no mercado de trabalho’’. Uriburu sustentou que o Fundo Monetário definiu a proposta do Ministério do Trabalho como ‘‘muito interessante’’.
Numa época em que a previsão de vida das pessoas aumenta em praticamente todo o mundo, inclusive com melhoria de qualidade, esta notícia é assustadora porque representa um descarte que se procura evitar. Aposentar pessoas porque estão ‘velhas’ para abrir vagas aos jovens constitui um verdadeiro atentado à dignidade dos mais idosos, uma atitude que parece estar na contramão de tudo o que se tem feito, no mundo inteiro, visando a propiciar condições melhores de vida aos seres humanos, independentemente da idade. Considerar que a idéia foi bem recebida pelo FMI, que estaria preocupado com o aumento do desemprego e a consequente recessão, é mais preocupante diante da dependência que também o Brasil tem em relação àquela instituição para conseguir recursos destinados a superar as crises que golpeiam a economia nacional.
Em realidade, embora o desemprego também seja um problema bastante sério no Brasil, há outro igualmente complexo, o da Previdência, que indica que, ao menos no momento, a idéia de aposentar os brasileiros mais depressa não faz parte das conjecturas oficiais. De fato, boa parte das discussões relativas à reforma da Previdência se situa justamente na questão das aposentadorias precoces, havendo um esforço no sentido de ampliar o prazo para garantir o direito à aposentadoria. É certo que no caso brasileiro isso não decorre de uma preocupação com os idosos, mas de uma situação muito complicada devido à estrutura mal elaborada do sistema previdenciário como um todo. Excluindo-se essa questão, vai-se perceber que aqui, como na Argentina, o idoso é excluído e visto com muito preconceito pela sociedade.
Ocorre que o percentual de pessoas idosas está crescendo em praticamente todo o mundo (salvo naquelas nações mais sofridas da África). O Brasil, chamado até há pouco de ‘país dos jovens’, já tem hoje uma imensa população na chamada terceira idade. E as previsões indicam que esta tendência vai crescer, tanto porque está caindo a taxa de natalidade nacional como pela melhoria - apesar de tudo - dos serviços de saúde e das condições de vida em geral da população. E é preciso pensar nesta população mais velha com seriedade. Considerá-la como um peso para a sociedade ou até, como se anuncia na Argentina, afastá-la do mercado de trabalho, como se fosse descartável, é a pior das alternativas. Perde-se um imenso capital, que foi aplicado sobre eles, de experiência e capacidade. Sem dúvida, é preciso abrir mercado de trabalho para os jovens. Este é um desafio permanente. Todavia, não será com o descarte daqueles que continuam a ser úteis e produtivos que se resolverá o problema. Jogar fora gente, só porque envelheceu, é uma péssima (e assustadora) alternativa.

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