Editorial - Desagravo que preocupa
Desagravo que preocupa
O episódio da destituição do comandante da Aeronáutica, brigadeiro Walter Werner Brauer, ocorrido na semana passada, deveria se esgotar agora, com a posse do seu sucessor, brigadeiro Carlos de Almeida Baptista. O brigadeiro Brauer, ao fazer comentários sobre a CPI do Narcotráfico e analisar a situação da assessora do ministro da Defesa, cometeu um ato, do ponto de vista militar, que pode ser considerado de indisciplina. Fosse ele um ministro civil, ainda assim a crítica poderia ser passível de demissão por parte do presidente, uma vez que configurou uma intromissão em assunto que não lhe diz respeito. Como militar, tem-se uma realidade ainda mais grave, diante dos preceitos de disciplina e hierarquia que norteiam a vida dos membros das Forças Armadas.
O anunciado almoço de desagravo ao brigadeiro, que será realizado no próximo dia 28, no Clube da Aeronáutica, pode converter a questão em uma coisa mais séria. As declarações do presidente do Conselho Deliberativo do referido Clube, brigadeiro Murillo Santos, um dos organizadores do almoço, foram de que o objetivo da reunião não é derrubar governo, mas homenagear a FAB em episódio em que as Forças Armadas foram enxovalhadas. Dentro mesmo do espírito militar, estas simples afirmativas do brigadeiro Santos seriam passíveis de punição, criando um inaceitável clima de confronto e até de ameaça. Declaração tão pesada chega a assustar, fazendo lembrar os tristes tempos (que se espera não voltem) em que militares resolviam tomar conta do país, considerando sob seu modo de entender que os civis falharam.
O que menos o Brasil está precisando, neste crucial momento, é deste tipo de agitação. Depois de encerrado o período da ditadura militar, em 1985, e principalmente diante do novo quadro que se desenhou no mundo e em especial no chamado Cone Sul, frontalmente contra qualquer tipo de golpe, não há como sequer considerar uma mudança agora. Considerar que se está dando ao episódio um destaque indevido, uma vez que se trata apenas de manifestação isolada de desagravo, pode ser perigoso, até porque esta forma de manifestação, partida de organismos militares, é por si inaceitável.
O brigadeiro Brauer merece o respeito pela sua vida como militar, por sua ação como patriota, pela dedicação de uma vida às Forças Armadas. Ele próprio, porém, como deixou claro depois do episódio de sua destituição, percebeu que havia ido além do aceitável, como militar, no comentário feito e que envolveu a agora ex-assessora do ministro da Defesa e, por extensão, o próprio ministro. Sua destituição não foi uma ação do governo, mas uma reação a um gesto que, conforme os padrões militares, foge totalmente à disciplina.
Outras questões envolvendo o Ministério da Defesa e a própria Aeronáutica são sérias e importantes, como as necessidades reais e inquestionáveis do setor. Todavia, como ressaltou o novo comandante da Aeronáutica, brigadeiro Carlos de Almeida Baptista, em seu discurso de posse, a situação da Força Aérea não pode ser melhor que a do País. Isto significa que também as necessidades das Forças Armadas estão adequadas à realidade e as possibilidades nacionais. O brigadeiro Baptista mostra aí a postura exata de um líder e de um comandante militar em um regime democrático. A decisão de se prestar homenagem ao ex-comandante da Aeronáutica é natural, inclusive porque o brigadeiro Brauer anunciou a intenção de deixar a ativa. Transformar isto em outra coisa, principalmente em algum tipo de contestação ao governo é inaceitável e assustador. Sem dúvida, prevalecerá o bom senso para que o episódio fique em sua dimensão, sem outras consequências.





