Editorial - Desafios na América Latina
A América Latina necessita aprofundar suas reformas econômicas para obter crescimento mais rápido e de maior qualidade, como forma de distribuir melhor seus benefícios. A afirmativa é do diretor gerente do Fundo Monetário Internacional, Michel Camdessus, feita durante entrevista à imprensa em Hong Kong, no início da assembléia nacional do FMI. A América Latina fez muitos progressos, mas não estamos satisfeitos porque a taxa de crescimento deveria ser mais alta, e a chave para isso é uma mudança mais profunda nas instituições, nos governos, o fim da corrupção, segurança de que os sistemas judiciais sejam imparciais e confiáveis, ampliação do papel do setor privado e investimento no capital humano, disse ainda o diretor do FMI. Abordando o tema que é hoje o maior desafio colocado ante os governos em todo o mundo - as reformas estruturais -, Camdessus mostrou-se otimista, afirmando ter confiança que a América Latina realizará esta segunda geração de reformas.
Por muitos anos, as advertências do FMI eram recebidas com restrições em muitos países, consideradas um tipo de ingerência indevida e inaceitável. A verdade também é que muitas das receitas do Fundo eram dolorosas, chocando-se com as políticas internas dos países subdesenvolvidos. Na nova realidade que o mundo vive, as coisas se mostram diferentes. O FMI mudou um pouco, mas a própria estrutura mundial também se alterou. Esta etapa nova que o mundo vive, a chamada globalização, esta integração cada vez maior das economias, tudo conduz a caminhos diferentes dos trilhados no passado, de tal modo que advertências ou conselhos do FMI são vistos hoje de modo diferente. Ademais, cresce a percepção sobre a vital necessidade de profundas mudanças nas estruturas políticas, sociais e econômicas da maior parte dos países diante dos desafios que se colocam com o avanço tecnológico e a cada vez maior inter-relação entre as nações.
Na realidade, a advertência do diretor do FMI vem somar-se a conselhos semelhantes dados nas últimas duas semanas pelo Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que em seus informes reconheceram os progressos obtidos, mas recordaram que falta muito por fazer para que a região alcance taxas de crescimento altas e sustentáveis, necessárias para reduzir o desemprego e a pobreza. O FMI chegou às mesmas conclusões em seu informe Perspectivas Econômicas Mundiais (PEM), publicado esta semana. O Fundo estimou o crescimento médio da América Latina para 1997 em 4,1%, e, para 1998, em 4,4%. Camdessus insistiu com os países que progrediram na implementação dos ajustes econômicos para que coloquem em andamento a segunda geração de reformas, que visam obter a durabilidade da expansão e também distribuir melhor os benefícios a fim de evitar a marginalização dos mais pobres.
Todos os estudos que fizemos nos demonstraram que a chave para subir deste nível (de 4,5%) para um crescimento de sete ou oito por cento, requer uma mudança mais profunda, enfatizou Camdessus. E esta mudança, conforme ressalta, implica também na necessidade de se investir no capital humano, na saúde e educação básicas. O baixo nível educativo é, a longo prazo, o maior obstáculo que a América Latina enfrenta para manter as taxas de crescimento superiores a 6%, sem as quais existem poucas esperanças de fazer algum efeito no problema da pobreza, conforme, inclusive, a opinião do principal economista do BID, Ricardo Hausmann. São desafios que reclamam decisões corajosas em benefício do futuro do Continente.





