Analistas, notadamente da área de História, comparam os problemas que o mundo enfrenta neste final de milênio com aqueles da transição do século 19 para o século 20. Citam as dificuldades enfrentadas pela população da época em consequência da revolução industrial, que produziu as grandes migrações da Europa e da Ásia para a América. Hoje, nos defrontamos com o desemprego na Europa e a falência das economias de diversos países da Ásia, que pode ter graves consequências na América, não só do Norte como do Sul. As semelhanças, assim como as diferenças, são marcantes.
Em primeiro lugar, as semelhanças. Vivemos hoje, basicamente, um contraponto à revolução industrial do século passado. Estamos no centro de uma nova revolução, a da cibernética, que une informática e robótica num mundo globalizado, produzindo desemprego, no primeiro momento, e reemprego em novas atividades e mercados, no passo seguinte. As máquinas e a concentração do capital produziram a mesma coisa no século passado.
Em segundo lugar, mas não menos importante, as diferenças. Houve mudanças estonteantes no século 20. A mais importante delas a longevidade. No século passado e começo deste, a expectativa de vida era de, no máximo, 60 anos. Agora, chega-se facilmente aos 80 anos, e não só nos países de economias fortes. O mundo jamais teve tanta gente quanto hoje, apesar de duas grandes guerras mundiais e do extermínio de milhões de pessoas sob regimes nazistas, fascistas e comunistas neste século.
Éramos 1 bilhão de humanos em meados de 1800 e hoje somos 6 bilhões. O desenvolvimento econômico e os avanços da medicina são os responsáveis pela façanha. Essa população não tem mais para onde migrar. Eis aí a segunda grande diferença. Não há mais Novo Mundo para ir ou terras para conquistar. É preciso resolver os problemas dentro das próprias fronteiras. É preciso aumentar a oferta de oportunidades para os humanos.
Se, no final do século passado, a falta de oportunidades produziu grandes migrações para a América, hoje a solução não é essa. Os 900 milhões de desempregados existentes - quase a metade da população da Terra no começo do século - não poderão ser colocados em naves espaciais para colonizar outros planetas, como os antigos fizeram em relação à América. O desafio, agora, é criar condições para os seres humanos viverem - e viverem bem - onde se encontram.
Um terço da população da Terra ainda vive mergulhado na fome e na miséria. Mas vários países onde vive essa gente têm vantagens apreciáveis. A maior delas o fato de ainda estarem longe de esgotar todo seu potencial. Brasil, Índia, China, africanos, islâmicos, só para citar alguns países e povos, têm um vasto horizonte no próximo milênio. Não pelo que têm ou são hoje, mas pelo que ainda não conseguiram ser.
A corrida para o novo século é competitiva. Quem for mais prático e objetivo se colocará melhor para atrair os investimentos daqueles que, já esgotados em seu potencial, precisam estabelecer-se em novos mercados para não morrer. Países como o Brasil têm um grande território a explorar, podem ampliar fortemente sua produção e criar novas oportunidades para seus povos.
Aqui, as reformas de base começam a acontecer. Tarde, mas enfim começam. No entanto, ainda nada se fez para priorizar a atividade produtiva. Ainda se pensa - depois de cinco anos! - que os juros vão manter a estabilidade da moeda indefinidamente, sem desgraçar a economia. Investimentos em produção, educação e saúde, estímulos ao emprego, pesquisas em energia são fatores que vão garantir a dianteira no próximo milênio.

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