Ainda que não se possa perder de vista que pesquisas eleitorais não representam o resultado final de um pleito, é certo que a evolução observada ao longo dos anos e o interesse de alcançar resultados confiáveis fazem com que tais levantamentos fiquem bem próximos da realidade. Em relação à eleição de outubro, isto significa que possivelmente uma ponderável parcela dos pleitos majoritários (presidência e governos de Estado) poderão ser definidos já no primeiro turno. E há um fator que torna esta perspectiva mais clara: é a possibilidade de reeleição.
Com efeito, titulares de cargos executivos (no caso atual, o presidente e os governadores), que podem disputar um novo mandato e que pela legislação continuam no exercício dos cargos enquanto fazem campanha, contam com uma evidente vantagem. O candidato da frente de esquerdas à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, sem dúvida aquele que neste momento parece ser o único capaz de tentar alguma coisa contra o presidente Fernando Henrique Cardoso, disse em recente palestra que a possibilidade de reeleição tornou o processo eleitoral ‘menos democrático’. Ele citou como exemplo a iniciativa do presidente Fernando Henrique Cardoso em convocar uma cadeia de rádio e televisão para explicar o fato de ter chamado de ‘vagabundos’ os aposentados com menos de 50 anos de idade, enquanto ele não teria essa mesma possibilidade. ‘‘Se eu falar uma bobagem qualquer, não terei direito à cadeia de rádio. Como é que se distingue o candidato do presidente?’’, questionou Lula.
O candidato do petista lembrou que quando eclodiu a crise da seca no Nordeste, com a revelação sobre a situação de fome de milhões de brasileiros, pesquisas indicavam que ele estava tecnicamente empatado com Fernando Henrique. Na época, denunciou o candidato da oposição, o presidente convocou donos de veículos de comunicação e logo em seguida a seca do Nordeste desapareceu do noticiário. ‘‘Coincidência ou não, um dia, quem sabe, a história vai mostrar’’, assinalou, afirmando, porém, que fatos como este davam bem o tom da dificuldade que um candidato tem ao enfrentar um adversário no poder.
Esta é uma realidade que poderia ter sido antecipada quando se discutiu, votou a aprovou o instituto da reeleição. Salta aos olhos que a possibilidade de disputar um novo mandato, em pleno exercício do cargo, dá ao político uma situação privilegiada. A História política norte-americana (afinal, o fato de a reeleição ser permitida nos Estados Unidos é que serviu de base para todas as emendas a respeito na América Latina), revela que um presidente precisa ser ineficiente ao extremo para deixar de ser reeleito. Pode-se também lembrar as manobras levadas a cabo pelo sr. Richard Nixon para se reeleger, que acabaram resultando no processo de Watergate e em sua renúncia. Lá, depois de tudo, descobriu-se a fraude. Entretanto, fica a evidência da enorme possibilidade de manipulação que é dada a quem disputa um novo mandato.
Todavia, esta situação surgiu em função de uma legítima decisão do Congresso e é com ela que os candidatos que enfrentam titulares em campanha pela reeleição têm que trabalhar. Para o eleitor, existe um fator que faltava em outras épocas, que é a possibilidade de julgar o presidente (e o governador) em um quase plebiscito. Afinal, a não-reeleição indicará, sem dúvida, uma desaprovação frontal ao que foi feito. Ainda que seja uma tarefa complicada a dos que tentam superar os titulares, este é outro desafio que não pode ser descartado nesta nova fase da política eleitoral brasileira.

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