Editorial - Desafio permanente
A defesa da moeda não conta com a ajuda de lobbies nem de grupos de pressão. O trabalho de se evitar a tributação do pobre através da inflação traz benefícios às maiorias silenciosas e desorganizadas, cuja voz se faz ouvir somente nas eleições. As palavras do presidente demissionário do Banco Central, Gustavo Franco, refletem uma realidade profunda. Que o Brasil enfrenta grandes dificuldades na execução de sua política econômica, é sabido. Que os problemas nacionais parecem imensos, é público e notório. O que, porém, precisa ser reconhecido é que o Brasil, nos últimos anos, avançou muito, conseguiu vitórias marcantes, modificou profundamente seu próprio perfil. A grande - e para muitos impossível - vitória contra a inflação exacerbada não pode ser minimizada ou esquecida. Trata-se, sem dúvida, de um feito fantástico, de dimensões dificilmente percebidas. Os males que a inflação provocou sobre o País ainda não foram superados. Lutar para evitar que ela volte é, como disse o sr. Gustavo Franco, tarefa tremenda, até porque não há grupos para defender a moeda. O que existe é a pressão dos especuladores, daqui e de fora, que insistem em forçar situações para benefícios pessoais, sem qualquer preocupação com o destino do país e a situação de seu povo.
A questão básica, não só na troca do presidente do Banco Central mas de toda a economia brasileira, é a defesa do plano de estabilização, que representa a sustentação de todo o arcabouço capaz de tirar o Brasil do atoleiro em que se encontra há tempo demais. A crise que existe é, no entanto, diferente da que o país enfrentou naqueles terríveis anos pós Cruzado, com planos que não funcionavam, com inflação tremenda cobrando um preço cada vez mais elevado da população, agindo inclusive sobre as bases morais do País, pois hiperinflação, sempre é preciso lembrar, é como câncer, destruindo o tecido bom do organismo em que se aloja.
Seguramente, o Brasil poderia estar hoje em situação melhor se as propostas do programa de estabilização tivessem sido implementadas, especialmente as reformas de base. Todavia, serve pouco ficar remoendo isto a não ser como lição a ser executada. É o que diz o presidente Fernando Henrique Cardoso, agora, quando insiste em que o importante é que se conclua o ajuste fiscal, se leve a sério a necessidade das medidas em tramitação no Congresso, se dê sequência aos projetos todos que servem como alicerce para que a estabilidade alcançada seja mantida. Vale, ao mesmo tempo em que se lamenta a não conclusão das reformas, a constatação de que o Brasil avançou muito, neste período, cresceu e evoluiu, notadamente no senso de cidadânia de seu povo.
O presidente Fernando Henrique enfatizou, em seu pronunciamento de ontem, que a substituição de Gustavo Franco por Francisco Lopes na presidência do Banco Central não significa uma mudança de rumo. A mudança no regime cambial dará abertura para uma redução dos juros, desde que se avance no ajuste fiscal, segundo o presidente. Ele disse que a mudança também abre espaço na política monetária. FHC assinalou ainda que as mudanças técnicas irão facilitar a continuidade do compromisso do governo brasileiro de manter políticas fiscal, monetária e cambial com regras claras, e regras são para serem cumpridas. O presidente lembrou que Lopes reafirmou esses compromissos em seu discurso na manhã de ontem. Um novo presidente para o BC e o mesmo propósito, com idêntico desafio. O que se busca é enfrentar com desassombro os problemas, com a mesma disposição de até agora. E de cobrar de todos, governantes em todos os escalões e governados, o trabalho que o País reclama para sua afirmação e progresso.





