Editorial - Desafio na economia
A estabilidade econômica não é uma situação que se atinge em dado momento e que persiste ao longo do tempo, sem a necessidade de qualquer atitude. Como todo o fenômeno da economia é uma coisa fluída e depende de um trabalho continuado e permanente, de cautela e atenção, de acompanhamento constante e, naturalmente, de uma vontade política bem definida. O Brasil, atualmente, dá a impressão de ter atingido uma situação fantástica em relação à moeda, principalmente em face da lembrança do passado recente, quando a inflação atingia percentuais inconcebíveis. O que se conseguiu em quatro anos chega a ser inacreditável, inclusive quando se sabe que o Brasil logrou, com o Plano Real, derrubar a inflação, reduzi-la sistematicamente e atingir, hoje, aquele estágio incrível, não só com índices muito baixos, mas até com valores negativos, a deflação.
Sob qualquer prisma que se observe, a situação é excelente. É preciso, porém, ter em mente que todas as conquistas obtidas até agora, e que levaram a este quadro aparentemente tão civilizado, no qual a estabilidade dá a impressão de ser um fato natural, não se sustentará sem a continuidade do trabalho, sem atenção e vigilância permanentes e, inclusive, sem novos sacrifícios. Ademais, não se pode deixar de lado a questão relativa à falta do complemento das reformas estruturais, planejadas e propostas quando o plano foi formulado e que ainda não se concretizaram. Por causa disto, e também em virtude de uma falta de disposição política dos governantes em conter seus gastos, persiste a ameaça maior, que é a decorrente de um déficit público que deveria estar zerado hoje, mas continua a crescer.
A situação que se vive é, portanto, curiosa. De um lado, um desempenho muito bom no que tange à derrubada da inflação. De outro, os perigos decorrentes de falhas governamentais e até de fatores externos, como a instabilidade econômica que ronda hoje alguns dos antigos tigres da Ásia. Aliás, esta influência externa sobre os fatos internos é algo novo no país. Durante a fase de descalabro econômico, o Brasil parecia um universo à parte, enfrentando taxas inflacionárias que derrubariam qualquer nação e usando artifícios até incompreensíveis lá fora, tudo isso dentro de uma política econômica absolutamente diferente de tudo o que existe ou existiu no resto do mundo. Com a estabilidade, porém, veio a natural correlação que faz com que os problemas externos repercutam internamente, por vezes com muita força.
Não é este, porém, o maior problema. O ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos Nicholas Brady, em visita ao Brasil, disse não acreditar que o real entre em crise da noite para o dia. Ele alertou que a privatização não resolverá o problema para sempre e insistiu em uma solução duradoura para o desequilíbrio fiscal. Mas assinalou não considerar que a volatilidade dos títulos da dívida externa dos países emergentes, ou mesmo os abalos das bolsas, sejam um problema. Para Brady, a oscilação que se observa nas bolsas da Ásia ou da Europa não é o maior desafio.
O economista norte-americano está certo quando aponta a necessidade de solução para o desequilíbrio fiscal como modo de evitar crises para o real. Trata-se da visão de quem acompanha de perto o desenrolar dos fatos econômicos e sabe, principalmente, que os fluxos especulativos que hoje atormentam os mercados não podem abalar economias fortes. O problema brasileiro está, precisamente, em fortalecer sua economia, o que só será possível através da implementação das reformas e da adoção de uma política mais séria de combate ao desperdício e ao abuso que aumentam o déficit público.





