Editorial
Desafio das drogas
Catorze chefes de Estado da América Latina se encontram em Nova York para participar da cúpula contra as drogas das Nações Unidas, que começa hoje e termina segunda-feira, e pretendem lutar por uma aliança global contra o narcotráfico, que ameaça a governabilidade da região. A América Latina - região produtora e vendedora de droga, e uma das principais rotas do narcotráfico - pretende contestar na cúpula ‘‘a divisão do planeta entre produtores e consumidores’’, considerando que ‘‘a droga representa uma ameaça mundial’’, conforme informaram diplomatas latino-americanos na ONU. Os representantes de mais de vinte países apresentarão nessa sessão especial, convocada por iniciativa do México, o pedido de um maior compromisso da comunidade internacional na luta contra as drogas.
O tráfico representa hoje, seguramente, um dos maiores desafios para a sociedade civilizada, devido ao seu poder cada vez maior. Em países como a Colômbia, os traficantes chegam a se confundir com o poder. Denúncias de participação dos grandes cartéis nas campanhas eleitorais são frequentes. E mesmo onde não tenham conquistado esta posição representam um perigo tremendo porque com o dinheiro que movimentam e com a falta de escrúpulos na luta para manter seu comércio, acabam subvertendo a própria ordem estabelecida. São hoje, sem dúvida, uma das mais graves ameaças à civilização, o que deixa claro que a postura dos países latino-americanos a respeito é muito lúcida e objetiva.
A realidade é que se não houver um posicionamento mundial, um esforço global no sentido de enfrentar o desafio do tráfico, a estrutura social como a que se estabeleceu no planeta está ameaçada. Para os traficantes, não existem fronteiras nem limites de qualquer tipo. Representam, na atualidade, a mais clara idéia de uma atividade multinacional absolutamente destituída de freios. Onde não conseguem dominar pelo suborno, pela corrupção, adotam a violência pura e simples. Agem abertamente em determinados locais, como é o caso bem demonstrativo do que está ocorrendo agora no Rio: traficantes enfeitam os morros em que predominam com motivos ligados à Copa do Mundo. Todos sabem que o trabalho é dos líderes do tráfico, existe pleno conhecimento até dos motivos desta forma de agir (colocam-se como membros da coletividade, participantes dos anseios comuns, defensores dos que estão à sua volta), mas ninguém, incluindo aí a autoridade constituída, tem condições de fazer qualquer coisa para conter esta evidente demonstração de poder.
A propósito, observadores da cúpula da droga assinalam que dentre os presidentes latino-americanos, talvez o sr. Fernando Henrique Cardoso seja um dos poucos que participarão do encontro sem uma grande carga de problemas, já que o Brasil é um país de passagem da droga, mas não de fabricação. De fato. Mas pretender que por isto a situação brasileira seja melhor é ilusório e perigoso, como se vê pelo próprio exemplo do Rio. E é válido lembrar que houve até uma tentativa de levar o Exército a participar do combate ao tráfico no Rio. Não resolveu o problema.
O que pode representar um caminho para enfrentar este desafio é a disposição comum de todos os países-membros da ONU em encarar a situação como é: o que existe é uma guerra efetiva entre a civilização e o tráfico. E, até agora, o crime vem vencendo. O mundo precisa acordar para esta situação e enfrentá-la com firmeza.

mockup