Editorial - Desafio da energia
A crise do petróleo que explodiu no mundo na década de 70 criou uma situação duríssima para os países dependentes como o Brasil e levou a um grande esforço para tentar reverter a situação. Provocada por uma terrível alta de preços, a crise acabou servindo para revelar o ponto fraco dos países que não eram auto-suficientes na produção de energia. Os efeitos da situação foram, num primeiro momento, assustadores. Depois, porém, a consciência da situação obrigou à tomada de medidas concretas. O Brasil colocou em vigor medidas de racionalização do consumo dos derivados de petróleo e só aí conseguiu uma expressiva economia. Mas foi além, trabalhando na pesquisa do petróleo - igualmente com certo sucesso, de tal modo que a produção nacional, atualmente, é ponderável -, ao mesmo tempo em que se lançava a programas alternativos, como o do álcool e o da exploração da energia elétrica. Na verdade, a produção de energia elétrica parecia, à época, uma solução possível para uma série de problemas. E o Brasil, com seu imenso território, com seus recursos hídricos, com todas as possibilidades existentes se lançou à construção de usinas, obtendo excelentes resultados.
Todavia, houve uma certa mudança nos últimos anos. A crise dos anos 70 foi sendo esquecida, os produtores de petróleo acabaram não se entendendo tanto, os preços do combustível se estabilizaram, não se falou mais na grande ameaça do esgotamento das reservas petrolíferas mundiais. Então, houve um natural abandono dos programas. O álcool, que em certo tempo parecia ser uma excepcional alternativa bem nacional, está sendo descurado; outras modalidades de energia alternativa, inclusive o uso da energia solar, quase não recebem apoio. E no que tange até à tão importante energia elétrica, houve uma redução nas obras. Com isto, o Brasil se vê novamente às voltas com a ameaça de falta de energia para atender às necessidades de curto prazo. Estudos técnicos realizados pela Companhia Energética do Estado de São Paulo mostram que faltará energia, a partir de 2001, nas regiões Sul e Sudeste do País. O engenheiro Oscar Pimentel, consultor da Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de Base (Abdib), fez um estudo sobre o risco do déficit na produção energética e, à pergunta sobre se vai ou não faltar energia, respondeu, taxativo: Vai faltar, a não ser que aconteçam profundas modificações na situação.
O alerta é ainda mais sério porque o especialista lembra que, se depender de produção hidráulica, não há como resolver a questão por não haver mais tempo hábil, visto que este tipo de usina tem prazo de maturação de 5 a 6 anos e já haverá falta prevista a partir de 2001. Quer dizer, para enfrentar este desafio só se houver efetiva disponibilidade de gás natural suficiente em termos de quantidade e preços para viabilizar os projetos térmicos previstos, conforme o técnico. O que se tem, portanto, não é apenas mais um alerta igual a tantos outros, mas uma análise muito séria e que reclama atenção e trabalho.
Esta análise evidencia, inclusive, a importância de se dar mais atenção a questões como as da descoberta de gás natural, no Paraná. Já houve uma percepção sobre a necessidade da exploração do gás e a construção do gasoduto Bolívia-Brasil é um dos projetos importantes nesse sentido. Todavia, assim como no caso do petróleo, a possibilidade de se ter gás de produção própria é melhor, não apenas devido à questão de preços e custos, mas por causa da auto-suficiência. Em 70, já se percebeu isto; hoje, a questão se repete: ou o Brasil encara o desafio da energia ou terá sérias dificuldades logo no começo do tão esperado terceiro milênio.





