Cansados, seguramente, dos intensos debates sobre a reforma ministerial e da dura batalha para resolver se o deputado Sérgio Naya, responsável pelo desabamento do Palace 2, deveria ou não continuar com seu mandato, os deputados federais resolveram descansar neste começo de mês, adiando para o fim de abril as últimas votações das emendas apresentadas no primeiro turno da reforma da Previdência. Os deputados também estão estressados pelas pressões eleitorais - as campanhas estão sendo planejadas agora -, seja para obter novo mandato ou para ganhar algum outro, no Senado ou nos governos estaduais.
Esta é uma das situações típicas da democracia verde-amarela que sempre provoca dúvidas no eleitorado. Será que seus representantes devem parar de trabalhar para conquistar outro mandato, e obter o mesmo direito de fazer o que não estão fazendo agora? Há dúvidas também entre os contribuintes: será que se deve continuar pagando os salários dos parlamentares quando eles param de trabalhar? Será que dá trabalho, como eles dizem, consultar com sacrossanta frequência as famosas bases eleitorais?
O sentido destas e outras questões não é o de desmoralizar a representação popular. O eleitor e o contribuinte querem o aprimoramento das instituições democráticas. Mas é difícil entender certas coisas da democracia brasileira. Não se concebe, por exemplo, só para citar uma, que o representante tenha quatro anos de estabilidade no emprego mesmo que não faça nada nesse período. E se conseguir enganar por mais quatro, tem aposentadoria garantida!
Enquanto não se aprimora a instituição, resta ao povo o voto, que é pouco, mas pelo menos tem o poder de corte. É preciso acompanhar atentamente os acontecimentos e decidir quem não merece mais confiança. Na hora do voto, que já se aproxima, é só descartar o indivíduo. Saber quem serve e quem não serve é mais fácil ainda se o eleitor for atento e não se deixar levar pelos defensores do voto nulo, uma praga que reaparece em cada eleição e serve somente para deixar as coisas piores do que estão.
O atual Congresso foi eleito na esteira do Plano Real e deveria estar desde o início da atual legislatura seriamente comprometido com as reformas estruturais, sem as quais - já dissemos aqui - o plano de estabilização é uma fraude. Nunca teremos moeda estável com rombos orçamentários crônicos, gastos descontrolados, funcionalismo (municipal, estadual e federal) inchado, juros nas alturas e ineficiência geral. As reformas visam, precisamente, a correção dessas falhas estruturais e quem não quer trabalhar para isso - promovendo as reformas da melhor maneira possível - não serve nem à democracia nem ao Brasil.
O adiamento das votações da reforma previdenciária, de vital importância para o processo, mostra a falta de sensibilidade para a situação que atravessamos. Dizer, como alguns opositores, que a aprovação da reforma da Previdência agora pode resultar em perda de votos é crer que a maioria do eleitorado é inconsciente, e isto não é verdade.
A grande maioria da população, que assumiu com coragem, vontade e discernimento o programa de estabilização, que tem aceitado os sacrifícios inerentes ao projeto e quer preços estáveis, tem plena percepção da importância de todas as reformas. Os poderosos lobbies que lutam para manter os privilégios existentes mostram uma reação que não é a do povo que trabalha 35 anos para ter o direito a uma magra aposentadoria. Esta faixa quer ter a segurança de que vai receber pelo menos o equivalente ao que recolheu. E deseja, também, que a moeda permaneça estável, para não perder com a inflação o que recebe como aposentado.
A grande maioria dos que insistem em bloquear as reformas luta por interesses corporativos e privilégios conquistados de modo abusivo. Outros ainda insistem em manter o Estado pai-patrão, que dá tudo a todos com dinheiro que cai do céu. Mas como isto não existe, as benesses que alguns defendem custam caro demais ao Brasil e aos brasileiros.
Se estivessem mesmo preocupados com a reeleição, os parlamentares deveriam é ficar em Brasília, completando as reformas, encerrando processos como o da cassação deste inacreditável Sérgio Naya, votando as Medidas Provisórias que se acumulam vergonhosamente e produzem mais confusão na vida legislativa do País, realizando, enfim, a tarefa para a qual foram eleitos e à qual deveriam dedicar tempo integral e período completo. Do contrário, nunca teremos um país organizado e estável.

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