Editorial Denúncias em São Paulo As explosivas denúncias feitas pela ex-esposa do prefeito Celso Pitta, de São Paulo, sra. Nicéa Pitta, indicam que o chefe do Executivo municipal paulista teria pago a vários vereadores para que a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Máfia dos Fiscais terminasse e para que votassem contra o impeachment. A investigação foi interrompida em maio. Os fatos são recentes e devem estar ainda na memória da maioria. Na época, houve intensa cobertura da imprensa, aconteceram prisões, as denúncias envolviam vereadores e secretários municipais e se formou a impressão de que o município de São Paulo havia se convertido em um verdadeiro valhacouto de ladrões. Infelizmente, a investigação parou, o prefeito continuou e novos assuntos passaram a ocupar a atenção da opinião pública. Se a acusação da ex-mulher do prefeito tiver algum fundamento, estará devidamente explicada a repentina suspensão dos trabalhos investigatórios, restando, porém, a quase obrigatoriedade de uma retomada deles, até como um modo para restaurar a credibilidade do povo nos seus governantes. Naturalmente, como nem poderia ser diferente, é certo que se deva reiniciar tudo, buscando as bases da própria acusação feita pela ainda considerada primeira-dama de São Paulo. Persiste a validade dos princípios jurídicos, que insistem em que os acusadores apresentem provas. Todavia, o fato de se tratar da pessoa que privou da intimidade do prefeito, dá peso à acusação. Adicionalmente, tem-se os fatos realmente denunciados ao longo do ano passado, envolvendo vereadores e secretários municipais, ocasião em que muitos depoimentos confirmaram a existência de focos de corrupção na capital paulista. Descartar as acusações sob alegações, como as do presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães, que afirmou ter sérias dúvidas sobre a sanidade mental de dona Nicéa Pitta, é inaceitável, até porque o senador baiano não tem credenciais médicas para este tipo de análise. O que ressalta neste, como em outros assuntos relativos à corrupção, é a necessidade de se exigir de modo radical que todas estas mazelas sejam investigadas até o fim, que os responsáveis sejam punidos, que haja, efetivamente, limpeza em todos os escaninhos da vida pública. Sem dúvida, caso se comprove que os denunciantes (como o caso de dona Nicéa) não tenham base em suas acusações, é o caso de também contra eles se usar a força da lei. Entretanto, diante mesmo do quadro de corrupção e impunidade que se percebe no país, é difícil deixar de acreditar nas acusações. São assuntos que não podem mais cair no esquecimento. Os motivos da ainda sra. Pitta não são tão relevantes quanto a gravidade das denúncias formuladas. A questão primária em tudo isto deveria ser o interesse de se averiguar todas as acusações, exigindo-se mais: que haja transparência plena na forma de atuação dos que governam. A persistência do atual estado de coisas, em São Paulo como em outras cidades ou Estados, é um acinte aos padrões democráticos e ao senso de cidadania que vem sendo a marca deste Brasil que emergiu de uma longa ditadura. Este novo Brasil, construído dia a dia com enormes sacrifícios da população, não pode mais ficar sujeito aos assaltos que vêm sendo cometidos com a maior desfaçatez, em toda a parte, e em todos os níveis. O País parou para ouvir as denúncias feitas pela sra. Nicéa Pitta, e imediatamente surgiram comparações da postura dela com a de Pedro Collor, o irmão do então presidente Fernando Collor, cujas informações igualmente explosivas levaram à criação da CPI que culminaria no impeachment. Este fio unindo duas histórias do Brasil recente reforça a certeza do muito que o País ainda precisa avançar para sair do lodo da corrupção. A população fica perplexa e exige medidas saneadoras definitivas. Sem elas, ainda seremos sinônimo de atraso numa nação de excluídos.

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