O deputado Geraldo Magela, do PT de Brasília, entrou com requerimento junto à Comissão Representativa do Congresso, na sexta-feira da semana passada, propondo a convocação do ex-secretário-geral da Presidência da República, Eduardo Jorge Caldas Pereira. Com base no artigo 7º da Resolução nº 3 do Congresso, o deputado argumenta que Eduardo Jorge deve prestar esclarecimentos sobre suas ligações com o juiz Nicolau dos Santos Neto, responsável pelo desvio de verbas públicas na construção do Fórum Trabalhista de São Paulo. Na justificativa, o parlamentar assinala que as notícias em torno do desvio de verbas públicas das obras do fórum apontam a responsabilidade do juiz Nicolau e as denúncias de ligação entre o juiz e Eduardo Jorge são gravíssimas e devem ser apuradas. Magela quer que o depoimento seja feito ainda durante o recesso parlamentar.
Eduardo Jorge deu entrevista a um jornal falando sobre as ligações com o ex-juiz Nicolau dos Santos Neto. A constatação do núcleo de articulação política do governo e de dirigentes do PSDB, do PFL e do PMDB é de que a entrevista de Eduardo Jorge é uma ameaça concreta à imagem de Fernando Henrique – desgastada em popularidade por conta das ações de governo, mas preservada, até agora, no que diz respeito ao quesito honestidade. Afinal, ao longo dos cinco anos e meio de governo, é a primeira vez que relações duvidosas com personagens envolvidas em escândalos de corrupção chegam até a ante-sala presidencial. Eduardo Jorge foi um secretário-geral forte, que não precisava bater à porta antes de entrar na sala do chefe, e que era definido por Fernando Henrique Cardoso como o seu ‘‘braço direito’’. Ele teve carta branca para organizar boa parte da campanha para a reeleição, embora sua saída do governo já estivesse sendo articulada. É por conta desse perfil que os governistas consideram um ‘‘gol contra’’ Eduardo Jorge aparecer, agora, falando do grau de cumplicidade que tinha com aquele que se tornou uma espécie de símbolo como o ‘‘corrupto número 1 do País’’, acusado de comandar o desvio de R$ 169 milhões das obras inacabadas e superfaturadas do TRT de São Paulo.
O que causou preocupação foi o ex-secretário ter confessado que negociava com o ex-juiz Nicolau as indicações de juízes classistas para os tribunais do Trabalho que não ameaçariam o Plano Real. Foi justamente por este ponto nebuloso que ministros e auxiliares de Fernando Henrique tentaram convencer Eduardo Jorge a voltar atrás na declaração, o que não foi feito. Os partidos aliados esperam que, por causa do recesso parlamentar, o caso tenha repercussão menor. Lembrando que este é um ano eleitoral, um dirigente da Câmara considerou que será difícil evitar consequências. O requerimento do deputado brasiliense sobre o assunto serve para confirmar os temores sobre possíveis desdobramentos negativos, para o governo, desta inconfidência do antigo auxiliar de confiança do presidente.
O momento é dos mais complexos para o governo, que continua a enfrentar elevados índices de insatisfação popular. Há indicações de que os novos números a respeito da confiança do povo no governo podem ser ainda piores do que os registrados recentemente. Vale lembrar que FHC já está com números piores que os obtidos por Getúlio Vargas, antes do suicídio, José Sarney, no final da gestão, e Fernando Collor, às vésperas de perder o mandato. O temor é o de que denúncias como esta, que podem envolver o governo em questões éticas e morais, piorem ainda mais a situação do presidente ante a população, antes mesmo que ele complete a metade de seu segundo mandato, o que pode, inclusive, complicar sua atuação nos próximos meses.

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