EDITORIAL - Democracias balançando
No Paraguai, a tentativa de golpe de Estado, provocando a reação do governo, com prisões e tudo mais que ocorre em situações similares; no Peru, o candidato à presidência pela oposição, Alejandro Toledo, resolveu desistir de disputar o segundo turno depois que um apelo no sentido de adiar as eleições foi negado; na Colômbia, o presidente André Pastrana está tentando lançar um referendo popular para, entre outras coisas, fechar o Congresso a fim de, como alega, criar condições na luta contra a corrupção; na Venezuela, depois de já ter feito um referendo quase nos moldes do que o presidente da Colômbia quer, o governo se prepara para eleições que têm provocado muita polêmica em relação à sua legitimidade. Paralelamente, o Equador continua em meio a uma complicada crise econômica, a Bolívia também enfrenta dificuldades sérias. A impressão é de que a democracia está balançando.
Não é, infelizmente, uma situação incomum. Na América Latina, a democracia não tem sido regra, mas quase exceção. Mesmo em países que aparentemente vivem uma situação democrática estável, como o México, a realidade não é tão agradável assim. Ali, o partido do governo se eterniza no poder, usando de todos os recursos possíveis, muitos dos quais nada democráticos, existindo ali um simulacro do que se possa chamar de governo do povo, pelo povo e para o povo. No sul do continente, a democracia também é planta nova. O Brasil saiu há menos de 15 anos de um regime totalitário que durou 21 anos. A Argentina atravessou períodos complicados, culminando com a ditadura de Juan Domingo Peron, e só em anos recentes reiniciou a caminhada democrática; o Chile teve Pinochet e ainda enfrenta os efeitos daquela ditadura; o Uruguai também viveu seu período totalitário e tenta reaprender a democracia.
A América Latina tem um histórico intenso de regimes totalitários. Vale observar que se totalitarismo resolvesse a situação dos povos, seguramente o quadro existencial latino-americano não seria o atual com miséria, fome, doenças e, principalmente, desesperança. Na verdade, esse quadro que acaba alimentando o surgimento de caudilhos, de salvadores da pátria que, no fim, resolvem apenas os próprios problemas, deixando mais sofrimento para seus povos. Para quebrar esta sequência de golpes é preciso uma mudança capaz de produzir situação nova, o que é difícil, não apenas porque os problemas existentes em quase todo o continente são gravíssimos, mas também por causa da falta de ações realmente sérias e consequentes, por parte dos governantes que deveriam estar mais comprometidos com o bem-estar de suas populações do que com seus sonhos políticos.
O que tem evitado que esta onda de golpes e tentativas acabe fazendo com que a América Latina apresente um retorno mais amplo ao totalitarismo é a reação continental ao arbítrio. Outro fator a se considerar é o esboroamento da União Soviética, com o fim da guerra fria e o consequente esvaziamento do fantasma do comunismo, que justificou em épocas recentes muitos golpes, inclusive no Brasil e no Chile. Entretanto, não serão fatores externos os determinantes para que os povos persistam no rumo da democracia. Persiste a exigência no sentido de que o sistema democrático atinja, efetivamente, os seus objetivos, proporcionando às pessoas condições de vida digna.
Embora a democracia seja uma questão política e não econômica, é certo que para a vida dos seres humanos uma coisa esteja envolvida com a outra. E o grande desafio no caso é precisamente o da democracia criar condições econômicas adequadas para garantir, pelo menos, a esperança da população.





