EDITORIAL - Democracia e miséria
Informe do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado ontem por um jornal carioca, revela que o Brasil é o 9º mercado do mundo de Ferraris, mas também é um país com 54 milhões de pobres, em que a desigualdade econômica aumentou sensivelmente nas últimas décadas. O estudo, chamado Desigualdade e pobreza no Brasil: retrato de uma estabilidade inaceitável, conclui que o grau de desigualdade em 1998 foi um dos mais elevados das duas últimas décadas, somente inferior ao registrado no final dos anos 70.
Assim como a desigualdade aumentou, a concentração da riqueza apenas mudou, segundo o estudo. Reconhecendo que houve uma pequena melhora, o analista econômico Ricardo Henrique assinala que a desigualdade se mantém. Foi o que aconteceu depois do impacto positivo do Plano Real, que conseguiu deter a inflação e aumentar o poder aquisitivo. Mas desde 1997 se registram uma recessão e um maior número de pobres, explicou ao jornal o diretor do Departamento Intersindical de Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), Sergio Mendoza.
A situação não ocorre apenas no Brasil e preocupa cada vez mais os especialistas, conforme se observa que o crescimento da democracia no mundo não está sendo acompanhado de uma melhora na situação econômica das populações. Nos últimos anos, como se sabe, o mundo sofreu uma tremenda e até inesperada transformação, com o fim da União Soviética, a derrocada dos regimes comunistas pela Europa e o fortalecimento da democracia em toda parte. Isso porém, conforme percebem agora os estudiosos, não implicou benefício para os povos. Ao contrário, a pobreza e a miséria crescem de modo assustador.
A questão talvez se possa entender melhor diante da percepção de que democracia é um regime político e não uma opção econômica. Com efeito, a liberdade da democracia propicia condições mais adequadas para a população. Entretanto, é necessário perceber que só isso não resolve o problema. Ao contrário, é vital reconhecer que em alguns regimes totalitários entre os quais os comunistas da Europa oriental havia menos miséria para o povo do que há agora, com a restauração da liberdade democrática. Não havia direitos individuais, os privilégios eram imensos, existia uma classe dominante que tinha tudo, mas a situação do povo, em termos econômicos, era menos ruim. Havia emprego sendo essa uma exigência do próprio regime e a pobreza era quase que igualmente dividida. Acabou o totalitarismo e a situação está pior para grande parte da população.
Diante disso, está claro que, junto com a liberdade democrática, é preciso haver uma elevação de propósitos e princípios entre os governantes. A democracia existente em muitos países, Brasil inclusive, ainda não é aquela que se almeja. Uma democracia real implica um Estado sem privilégios, governantes honestos, ação íntegra dos agentes públicos. Não é o que acontece na maioria das democracias, especialmente nesta América Latina que, politicamente se mostra a favor da liberdade, mas economicamente ainda mantém os mesmos padrões e métodos da época colonial.
A concretização da estabilidade econômica no Brasil depende de profundas reformas estruturais, mas só com mudanças efetivas de mentalidade é que se terá uma economia capaz de reduzir o grande abismo entre os poucos que vivem na extrema riqueza e os muitos que vivem na miséria. Não é apenas um desafio da democracia, mas do próprio senso de dignidade humana.





