Mesmo que não houvesse acontecido a revolução econômica, provocada pela desvalorização do real, com a retomada da inflação (ainda que em nível bem inferior ao de outros tempos), o reajuste do salário mínimo já estaria em discussão nesta época. Falta um pouco mais de um mês para maio, quando o valor do mínimo foi reajustado pela última vez e período em que, normalmente, há o anúncio do seu novo valor. Naturalmente, se a inflação tivesse se mantido na tendência verificada ao longo do ano passado e se o real não sofresse desvalorização diante do dólar, o Executivo teria condições de sugerir que não houvesse reajuste algum no mínimo. Esta foi a tendência observada nos últimos meses pelos empresários nas discussões salariais com os trabalhadores e, de modo geral, com as perspectivas positivas de uma moeda estável, era possível que a idéia vingasse. Entretanto, a desvalorização do real aconteceu, o mínimo, que em janeiro valia algo em torno de US$ 90, hoje está pela casa dos US$ 70, o que contraria até proposta do presidente Fernando Henrique Cardoso, que garantiu um mínimo na casa dos US$ 100. Com isso, a discussão começou, as propostas surgiram e o esforço que o Executivo tentou fazer no sentido de deixar para depois a questão apenas serviu para fortalecer posições em favor de um reajuste, não só do mínimo como de todas as faixas salariais.
Ao tentar adiar a discussão, o Executivo mostrou inabilidade. Ao propor um reajuste pela casa dos 6% a 8%, inclusive sem explicar de onde é que saiu este índice, qual o cálculo que produziu a idéia, o PSDB, partido do presidente, foi também pouco hábil. Paralelamente, os setores da oposição que sugerem reajustes elevados, e falam até de gatilho salarial diante do aumento da inflação nos últimos meses, não conseguem esconder o tom demagógico de suas propostas. Estamos, outra vez, diante de antigos discursos do tipo paternalista, desvinculados da realidade e que nem sequer conseguem esconder o interesse subalterno de usar o salário e seu reajuste para fazer politiquice, sem pensar de fato nos problemas efetivos do trabalhador e do próprio país.
Anos de inflação exacerbada, de uma indexação que jamais deu ao salário condições de garantir ao trabalhador uma vida digna, deveriam ter ensinado alguma coisa aos políticos. Pelo que se nota, esse curto período de uma quase estabilidade não foi suficiente para modificar mentalidades ou garantir a percepção de que a solução para eventuais retomadas da inflação não pode ser o reajuste imediato de salário, que apenas acaba por estabelecer de novo a mesma ciranda altista da qual há tão pouco tempo o país se livrou. E o risco é o de se ver o Brasil lançado novamente em uma discussão que, afastando-se da realidade, propicie o surgimento de tensões. E estas, junto com a própria instabilidade econômica criada pelos últimos acontecimentos, podem levar à perda de todos os sacrifícios feitos nos últimos anos.
Felizmente, é significativa a parcela dos brasileiros que percebem que melhor que reajustes aleatórios seria a queda da inflação e o retorno à estabilidade há tanto perseguida. Como, porém, no próprio projeto de governo para enfrentar a crise atual existe a previsão de uma alta da inflação nos próximos meses, é certo considerar que deve ser encontrada uma fórmula capaz de garantir certa proteção ao ganho do trabalhador. Entretanto, isto precisa ser buscado de modo coerente, sem demagogia populista, sem paternalismo, mas com habilidade política que o Executivo, infelizmente, não demonstra ter. O reajuste do mínimo e também dos salários em geral, todos prejudicados pela volta da inflação, é um grande teste que os governantes brasileiros precisam enfrentar com serenidade e competência.

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