Os burocratas do governo ainda não aprenderam que a agricultura tem épocas adequadas para o plantio, porque todos os anos algum segmento do campo reclama de atraso na liberação do financiamento para os custeios da lavoura. Agora são os pequenos produtores, clientes do Programa Nacional de Apoio à Agricultura Familiar, que se queixam, porque é época de plantio e os recursos não chegam, emperrados pela burocracia oficial.
E, para despertar essa gente de gabinetes, é preciso, todos os anos, começar a gritar pela liberação desses recursos. É o que centenas de pequenos produtores farão hoje, em Curitiba, comandados pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Paraná. Eles deixarão o campo e se deslocarão até a cidade para o ‘‘Grito da Terra’’, como única forma de chamar a atenção da Superintendência do Banco do Brasil e avisá-la que é agosto e tempo de começar a plantar.
Só assim, ante a troarda gerada pelo brado reivindicatório, que ecoará pelos jornais e pela televisão, os agentes do banco oficial despertam da letargia. Todos os anos é a mesma coisa. Se um setor é atendido em tempo, o outro fica a descoberto. Agora, se o atraso persistir para estes pequenos agricultores, o plantio de feijão ficará comprometido.
A superintendência tem sua resposta: está aguardando a equalização dos juros para colocar os recursos nas agências. Como equalização é um termo que o homem simples da roça desconhece, e como os burocratas nada sabem sobre as tabelas do campo - que estabelecem o tempo de semear e de colher - impera esse descompasso e parece difícil à comunidade instalada dentro das repartições públicas, afinal, aprender. Se o financiamento é irregular a produção atrasa, favorece a especulação e prejudica o consumidor.
Segundo um porta-voz do próprio banco, a prioridade foi atender aos produtores de soja e milho. Os plantios, para cada cultura, têm épocas apropriadas - que são sempre as mesmas - mas o banco financiador custa a acertar os ponteiros de seu relógio com o marcador de tempo do agricultor. No presente caso, pela palavra das assessorias oficiais, a equalização depende de portaria do Banco Central ou do Ministério do Desenvolvimento Agrário, por implicar em financiamento do Tesouro Nacional.
Tudo isto se sabe, mas estranha que essas tais portarias sejam tão problemáticas e custem tanto a serem emitidas, e que esses financiamentos para a agricultura - tão alardeados pela propaganda institucional - demorem tanto para ser liberados, e na hora certa. Parece que o governo só funciona, mesmo, na base do grito. Com o grito de hoje, certamente os financiamentos comecem a ser liberados.

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