A decisão da bancada de oposição da Assembléia Legislativa de oficializar o afastamento de seus três integrantes da CPI do Narcotráfico, devido à permanência do deputado Algaci Túlio naquela Comissão, coloca de novo em evidência uma questão muito delicada relativa ao procedimento dos homens públicos. Algaci Túlio preside a aludida CPI e foi acusado de manter ligações com o empresário Paulo Mandelli e com o investigador Altair Ferreira Pinto, o Taíco, sendo que paira sobre ambos denúncias de envolvimento com o crime organizado, conforme foi bem detalhado pela CPI nacional sobre o assunto. Para a oposição, desde o momento em que se divulgou uma relação de amizade envolvendo o parlamentar e pessoas sob suspeita, Algaci Túlio deveria se declarar moralmente impedido de continuar na CPI.
Seria bem o caso de considerar que para a oposição vale o ditado popular que diz: ‘‘Diz-me com quem andas, que te direi quem és’’. A sabedoria popular implícita nesta afirmativa tem a ver com as escolhas, podendo ser até um complemento à comentada questão sobre a atração entre iguais. No caso, uma vez que há sérios indícios de ligação entre o deputado e pessoas denunciadas pela CPI nacional sobre o tráfico, surge um tipo de suspeição sobre o trabalho que o deputado Algaci Túlio poderia realizar. É possível contestar esta posição, considerando-a abusiva de vez que dá a impressão de estabelecer um verdadeiro patrulhamento ideológico que envolve até a privacidade do indivíduo. Com efeito, ainda mais em uma democracia, qualquer pessoa pode ter os amigos que quiser sem que isto seja motivo para críticas ou condenações.
Acontece que não se está analisando uma questão que envolva o cidadão comum. Na vida privada, o cidadão tem todo o direito à privacidade, escolhe os amigos que queira, vai a qualquer lugar. Mas o deputado, assim como qualquer outro homem público, detentor de mandato eletivo ou ocupando um cargo de decisão na República, vive uma situação diferente da vivenciada pelo cidadão comum. Foi em relação a isto que os romanos cunharam, há cerca de 2 mil anos, a célebre afirmativa segundo a qual ‘‘a mulher de César não só deve ser séria, mas também tem que parecer séria’’. É precisamente o fato da situação pública, que exige não apenas uma postura, mas toda uma atitude de vida. Evidentemente, os homens públicos, assim como todos os cidadãos, têm o direito à privacidade. Entretanto, é importante perceber que diante de certas situações há a necessidade de um esclarecimento devido às múltiplas implicações que surgem a partir da denúncia sobre amizades consideradas perniciosas.
O mais grave no episódio é o fato de que se esvazia uma CPI capaz de apresentar uma enorme colaboração na identificação dos criminosos que parecem estar (pelo que se pode concluir com as muitas revelações da CPI nacional sobre o narcotráfico) disseminados por setores delicados da sociedade, inclusive junto à polícia e Poderes estaduais. É exatamente o que não poderia acontecer neste momento histórico que o Brasil vive, quando a sociedade organizada e a evolução da consciência cidadã começam a perceber os frutos de toda uma luta moralizadora que é fundamental para a garantia dos padrões de civilização que a coletividade persegue. A Assembléia Legislativa, com a força de sua representação, teria condições de abrir novos caminhos e produzir fatos que levem à necessária limpeza nos órgãos públicos, muitos dos quais postos hoje sob suspeição. Com a crise que se abriu agora, existe o risco de se perder a oportunidade para enfrentar um dos mais sérios problemas com que a sociedade convive.

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