Editorial - Crise moral
O desembargador Márcio Martins Bonilha, presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, falando durante uma solenidade no interior daquele Estado, assinalou que o Brasil vive uma crise moral sem precedentes em vários segmentos do setor público, no que está absolutamente certo. Todavia, seu pronunciamento perdeu muito quando reclamou, na mesma fala, do que chamou de uma campanha organizada, do norte ao sul do País, para denegrir a imagem do Judiciário. E completou o desacerto ao afirmar que a aludida campanha está relacionada com o esforço que juízes e promotores vêm realizando para enfrentar a corrupção. De certo modo, o ilustre membro do Judiciário paulista lembrou a manifestação do presidente Fernando Henrique Cardoso, quando se disse enojado da corrupção denunciada em quase todo o país, garantindo, entretanto, que isto não acontecia em seu governo.
Infelizmente, a corrupção hoje atingiu, como afirmou o desembargador, o setor público de modo quase geral, o que inclui Legislativo, Executivo e Judiciário, envolvendo União, Estados e municípios. No que diz respeito ao Poder Judiciário, mesmo deixando de lado os juízes que foram presos há alguns anos, no Rio, envolvidos em fraudes contra a Previdência, restam ainda, entre outras coisas, denúncias bem comprovadas contra juízes e desembargadores, inclusive de São Paulo, incluindo superfaturamento de obras para construção de prédios próprios para a Justiça.
A realidade é que a corrupção está, efetivamente, entranhada no setor público. Vale, aliás, observar que quem já conseguiu superar em muito este quadro de corrosão moral foi a sociedade civil, salvo, naturalmente, algumas exceções. O que se deve recordar é que à época da inflação exacerbada e este é um mal que, como um câncer moral, atinge toda a sociedade havia um clima muito elástico em relação aos padrões morais. A sociedade estava contaminada e a famosa lei, que dizia que era importante levar vantagem em tudo, prevalecia em todos os setores, públicos e privados. Com as medidas de estabilidade da economia, que reduziram a inflação a patamares civilizados, este quadro mudou para a grande maioria da sociedade civil.
Já no setor público, as coisas não funcionaram da mesma maneira. Repete-se aqui o que já se observou em outras oportunidades, quando o governo lançava sacrifícios para o povo, mas não fazia sua parte. O mesmo está ocorrendo. E com uma agravante, perceptível no alerta do presidente do TJ de São Paulo: o espírito de corporação, que faz com que membros de qualquer organização e aí se incluem políticos, membros do Executivo e do Judiciário defendam seus pares, mesmo que alguns estejam comprovadamente envolvidos com a corrupção. Quando o desembargador Bonilha diz que o Judiciário continuará buscando uma mobilização nacional pela moralização dos costumes políticos, está de acordo com tudo o que a população quer. Mas no momento em que aponta uma campanha para denegrir a imagem do Judiciário, fazendo vistas grossas aos fatos já denunciados e comprovados, envolvendo membros daquele Poder, está não só se mostrando parcial mas, também, reduz em muito o poder de sua argumentação.
A crise moral, denunciada pelo magistrado de São Paulo, existe. E tem que ser combatida, inclusive porque ameaça as próprias instituições. Com efeito, diante de tanto roubo a população passa a descrer dos seus governantes e da própria democracia. Prefeito, deputado, secretário, ministro, vereador, senador, juiz, quem quer que seja corrupto deve ser punido e afastado, sem qualquer distinção ou manobra de estilo corporativo.





