Editorial - Crescimento sem inflação
Crescimento sem inflação
As aparentemente distintas posições manifestadas pelos ministros Pedro Malan, da Fazenda, e Clóvis Carvalho, do Desenvolvimento, durante o seminário Desenvolvimento e Estabilidade, promovido pelo PSDB, na verdade não são tão discordantes assim. O ministro da Fazenda assinalou em seu pronunciamento que o país não deve seguir o discurso fácil e adotar medidas para um crescimento sem sustentação. Insistiu em que o desenvolvimento tem que vir acompanhado de mudanças importantes e permanentes, como aumento de produtividade, eficiência, perspectivas de futuro e responsabilidade fiscal. Já o ministro do Desenvolvimento assinalou que o governo precisa arriscar até o limite da responsabilidade para promover o crescimento econômico. Deixou claro que, no seu entendimento, acelerar o crescimento não trará o apocalipse.
Ambos estão preocupados com a retomada do crescimento econômico. As discordâncias podem ser consideradas naturais, diante mesmo da formação de cada um. Malan é um técnico, Clóvis Carvalho está mais ligado à política. Para o ministro da Fazenda, a grande preocupação ainda é a estabilidade da moeda. E não se pode deixar de considerar que ele está certo. É tentadora a idéia de se adotar medidas que produzam rápidos efeitos de crescimento econômico. O momento é sério, o governo precisa de resultados até para contrapor com o cada vez mais duro discurso da oposição. Todavia, e mesmo considerando que a camada mais carente efetivamente precisa de soluções urgentes para seus problemas, todos praticamente ligados ao crescimento da economia, é certo que o raciocínio do ministro Malan constitui um bom anteparo à tendência mais animada do titular do Desenvolvimento.
Ademais, é válido observar o posicionamento do secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Edward Amadeo, da equipe do sr. Pedro Malan. Amadeo considera que é possível à economia brasileira crescer no próximo ano, sem gerar surtos de inflação, desde que exista um aumento de produtividade no setor industrial. De acordo com levantamento feito pela Secretaria de Política Econômica, de agosto de 1994 a abril de 1999, a produtividade do setor industrial brasileiro cresceu cerca de 50%, o equivalente a um aumento de 13,5% da produtividade por ano. É um bom referencial. Ao apresentar o Boletim de Acompanhamento Macroeconômico de agosto, Amadeo lembrou que os Estados Unidos são um exemplo concreto de crescimento contínuo da economia sem pressões inflacionárias.
É fundamental conciliar as posições: o crescimento econômico é necessário, mas o País não pode perder tudo o que conquistou na luta contra a inflação. É preciso considerar ainda, com seriedade, que um tipo de desenvolvimento que traga de volta as pressões inflacionárias, que restaure os tenebrosos índices de há alguns anos, não vale a pena. No meio-termo, entre as posições de Malan e de Clóvis Carvalho, pode-se encontrar a melhor alternativa, o que é, aliás, o papel a ser desempenhado pelo chefe dos dois, o presidente Fernando Henrique Cardoso. Há que se encontrar o ponto exato para que haja o crescimento sem inflação. E o sr. Edward Amadeo dá a receita, que vale para todos os setores: o aumento da produtividade.
É preciso seguir por este caminho. É possível soltar as amarras que estão travando a retomada do crescimento, através medidas que possibilitem o aquecimento auto-sustentado do mercado. Na medida em que o Executivo federal encontrar o ponto de equilíbrio para realizar esta tarefa, o Brasil terá resolvidos ponderáveis parcelas de seus mais graves problemas.





